10.9.04
9.7.04
25.6.04
25.5.04
9.5.04
19.4.04
Dez microcontos
Por Dauro Veras
Assalto 1: perdeu ganhou
O otário era a cara do seu filho. Toma aí: grana pro ônibus.
~
Assalto 2: perdeu perdeu
O otário parecia seu filho, aquele ingrato. Passou-lhe o rodo.
~
Atraso
Um minuto mais cedo e pegaria o vôo fatídico. Cu pra lua.
~
Destino
Teria sido amor à primeira vista, mas ela dobrou a esquina.
~
Desilusão
Deu-lhe casa, comida, roupa lavada. Nada pediu. Nem ganhou.
~
Para Bandini
Ao ver o carro capotado, o cachorrinho riu. Fim da fuga, pneu.
~
Gato incompreendido
Trouxe uma oferenda - grátis -, mas ela gritou: "Barata!"
~
Reflexivo
Pensou em revidar o tapa, mas perdera o tempo e o espaço.
~
Impulsivo
Revidou o tapa de imediato. Até hoje não sabe se agiu bem.
~
O corno e o segredo desvendado
Abriu a porta em silêncio. Viu, chorou, fez a mala e se foi.
Por Dauro Veras
Assalto 1: perdeu ganhou
O otário era a cara do seu filho. Toma aí: grana pro ônibus.
~
Assalto 2: perdeu perdeu
O otário parecia seu filho, aquele ingrato. Passou-lhe o rodo.
~
Atraso
Um minuto mais cedo e pegaria o vôo fatídico. Cu pra lua.
~
Destino
Teria sido amor à primeira vista, mas ela dobrou a esquina.
~
Desilusão
Deu-lhe casa, comida, roupa lavada. Nada pediu. Nem ganhou.
~
Para Bandini
Ao ver o carro capotado, o cachorrinho riu. Fim da fuga, pneu.
~
Gato incompreendido
Trouxe uma oferenda - grátis -, mas ela gritou: "Barata!"
~
Reflexivo
Pensou em revidar o tapa, mas perdera o tempo e o espaço.
~
Impulsivo
Revidou o tapa de imediato. Até hoje não sabe se agiu bem.
~
O corno e o segredo desvendado
Abriu a porta em silêncio. Viu, chorou, fez a mala e se foi.
Uniforme de trabalho
Por Diógenes Botelho
O uniforme de trabalho está sempre impecável. Muleta lustrada, bandagem na perna trocada a cada 12 horas, calça jeans arregaçada até o joelho da perna esquerda. Pentinho flamengo sempre no bolso da camisa de flanela e uma caixinha de sapatos, cuidadosamente forrada com papel de presente, pousada na murada. Elias dos Santos, 47 anos, cumpre expediente das 8 às 18 horas na porta do anexo II da Câmara dos Deputados, em Brasília. Seu escritório é emoldurado por uma grande gamela branca, virada de boca para baixo.
Vive de esmolas desde 1981. Desembarcou na capital federal, vindo do Piauí, carregando na trouxa de farinha de puba o sonho de progredir no Planalto Central. Filho do semi-árido nordestino, da seca e dos desmandos dos coronéis, Santos trabalhou como servente, pedreiro e chegou a mestre de obras. No dia 17 de setembro de 1995 uma laje caiu sobre sua perna, amputando os sonhos de futuro melhor para os seis filhos com dona Jacira, uma cabloca miudinha de Picos.
O tilintar de moedas é escasso na caixinha, notas muito raras. Por dia, em "dias bons", tira no máximo R$ 10. "Quem mais dá é quem não usa gravata e doa o troco do ônibus", conta o sertanejo que esbarra diariamente com políticos famosos e estrelas da mídia. Mas não reclama da vida. Construiu uma casinha em Planaltina e um dos filhos, Brasilino, vai fazer vestibular esse ano. "Quero que ele vire doutô, que use gravata e que dê pelo menos uma muedinha pra quem precisa".
Por Diógenes Botelho
O uniforme de trabalho está sempre impecável. Muleta lustrada, bandagem na perna trocada a cada 12 horas, calça jeans arregaçada até o joelho da perna esquerda. Pentinho flamengo sempre no bolso da camisa de flanela e uma caixinha de sapatos, cuidadosamente forrada com papel de presente, pousada na murada. Elias dos Santos, 47 anos, cumpre expediente das 8 às 18 horas na porta do anexo II da Câmara dos Deputados, em Brasília. Seu escritório é emoldurado por uma grande gamela branca, virada de boca para baixo.
Vive de esmolas desde 1981. Desembarcou na capital federal, vindo do Piauí, carregando na trouxa de farinha de puba o sonho de progredir no Planalto Central. Filho do semi-árido nordestino, da seca e dos desmandos dos coronéis, Santos trabalhou como servente, pedreiro e chegou a mestre de obras. No dia 17 de setembro de 1995 uma laje caiu sobre sua perna, amputando os sonhos de futuro melhor para os seis filhos com dona Jacira, uma cabloca miudinha de Picos.
O tilintar de moedas é escasso na caixinha, notas muito raras. Por dia, em "dias bons", tira no máximo R$ 10. "Quem mais dá é quem não usa gravata e doa o troco do ônibus", conta o sertanejo que esbarra diariamente com políticos famosos e estrelas da mídia. Mas não reclama da vida. Construiu uma casinha em Planaltina e um dos filhos, Brasilino, vai fazer vestibular esse ano. "Quero que ele vire doutô, que use gravata e que dê pelo menos uma muedinha pra quem precisa".
12.4.04
(em construção)
Por Nilva Bianco
Só porque lhe sorri
Dia desses uma senhora me olhou
como se eu fosse um anjo
Anjo, eu?!
Se fosse, teria que lavar com creolina
Minhas asas negras de poluição,
Se fosse, seria estraçalhado pelos helicópteros
no céu da cidade.
Se fosse anjo,
Teria que acudir meninos atordoados,
consolar mendigos e desvalidos,
amparar velhos de barbas sujas.
Guiá-los até o juízo final.
Sofrer com a dor alheia.
Amar incondicionalmente.
Dia desses uma senhora me olhou
como se eu fosse um anjo
Anjo, eu?
Não, foi só distração.
Por Nilva Bianco
Só porque lhe sorri
Dia desses uma senhora me olhou
como se eu fosse um anjo
Anjo, eu?!
Se fosse, teria que lavar com creolina
Minhas asas negras de poluição,
Se fosse, seria estraçalhado pelos helicópteros
no céu da cidade.
Se fosse anjo,
Teria que acudir meninos atordoados,
consolar mendigos e desvalidos,
amparar velhos de barbas sujas.
Guiá-los até o juízo final.
Sofrer com a dor alheia.
Amar incondicionalmente.
Dia desses uma senhora me olhou
como se eu fosse um anjo
Anjo, eu?
Não, foi só distração.
Campos Elíseos
Por Nilva Bianco
Na avenida,
Manhãzinha ainda,
desfile de tipos:
estoquistas, balconistas, analistas
a caminho da lida.
Meninas saídas dos inferninhos
precisam dormir,
exauridas de strip-teases,
uísque de quinta
e rapidinhas que aliviam
o holerith dos imbecis.
As marquises
viram abrigos de famílias
e meninos encardidos.
A pinga é antídoto pro frio,
pãozinho dormido
alivia a barriga vazia,
mijo se infiltra no piche da avenida.
Nas padarias,
dobradinha a cinco pila
e azia de brinde pro dia.
Na esquina, polícia e trafica
dividem o ilícito,
barraquinhas comerciam porcarias,
travestis desfilam seu fastio.
Nos cortiços carcomidos,
famílias compartilham clandestinas
seus dias perdidos.
Nas partidas de quinta, destino Piauí,
O sorriso doído do nordestino
que foi cuspido pela big city.
Manhãzinha, avenida sumindo de vista.
Por Nilva Bianco
Na avenida,
Manhãzinha ainda,
desfile de tipos:
estoquistas, balconistas, analistas
a caminho da lida.
Meninas saídas dos inferninhos
precisam dormir,
exauridas de strip-teases,
uísque de quinta
e rapidinhas que aliviam
o holerith dos imbecis.
As marquises
viram abrigos de famílias
e meninos encardidos.
A pinga é antídoto pro frio,
pãozinho dormido
alivia a barriga vazia,
mijo se infiltra no piche da avenida.
Nas padarias,
dobradinha a cinco pila
e azia de brinde pro dia.
Na esquina, polícia e trafica
dividem o ilícito,
barraquinhas comerciam porcarias,
travestis desfilam seu fastio.
Nos cortiços carcomidos,
famílias compartilham clandestinas
seus dias perdidos.
Nas partidas de quinta, destino Piauí,
O sorriso doído do nordestino
que foi cuspido pela big city.
Manhãzinha, avenida sumindo de vista.
7.4.04
A vantagem é que dura apenas uma semana
Por Emerson Gasperin
Assim como existe a Fashion Week, o Ano Internacional do Idoso, o Mês da Desgraça e o Dia da Mentira, há a Semana Caetano Veloso. É o período que cerca o lançamento de um novo disco do artista, quando todas as mídias unem-se para ouvir o que o semi-deus de Santo Amaro da Purificação tem a dizer ao Brasil, ao mundo e, conforme a disposição da divindade, até ao planeta Sedna. Em intervalos irregulares - a última edição ocorrera em 2002 -, a realização do evento mobiliza veículos das mais variadas tendências políticas, religiosas e sexuais. O Caso Waldomiro, a dieta de Beverly Hills, o meio-campo do Flamengo, o vencedor do Big Brother, a descoberta da cura para a gota; nada escapa da opinião panorâmica do autodenominado “Velosão” (sic).
Engrossando o coro dos bafejados pela sapiência tropicalista, é seu recente trabalho - A Foreign Sound, composto por regravações de standards norte-americanos - que vai preencher as linhas de hoje. Em 23 faixas, Caetano Veloso visita clássicos de Irving Berlin, George Gershwin, Cole Porter, Duke Ellington, Stevie Wonder, Paul Anka, Bob Dylan e Elvis Presley, entre outros. Trata-se do tipo de empreitada que nem é necessário escutar para perceber que deve ser genial. Afinal, reúne clássicos que venceram as restrições do tempo cantadas pela voz que desafiou todas as convenções poéticas ao rimar “eta, eta, eta” com “Tieta”. Os arranjos? Ah, ninguém liga para isso. Mas, se ligasse, também constataria que são impecáveis, alternando-se entre a reverência pura e simples ao original e a rebeldia iconoclasta do mais famoso intérprete de Peninha.
Feita a descrição do produto, saltam ao estômago duas releituras. Uma, “Feelings”, é abordada de forma séria, hierática, como merece o hit supremo do ianque carioca Morris Albert. A outra, “Come As You Are”, desnuda a relação esquizofrênica que Caetano Veloso mantém com a banda de Kurt Cobain. Às vezes, o Nirvana “é um lixo, se comparado a Ivan Lins”. Às vezes, é o último sopro de renovação experimentado pelo rock. A julgar pela versão contida em A Foreign Sound, Caetano estava naqueles dias em que acreditava piamente na primeira opção. Fica a sugestão para que, caso seja tramado um Volume 2, ele não deixe de incluir “Longview”, do Green Day, e “Hey Ya”, do Outkast, que também renderiam discussões proctológicas acerca da integridade artística do projeto.
A especulação começou já na data marcada para apresentar a obra-prima à imprensa: 1º de abril, 40º aniversário do golpe de 1964 e dia em que fazer os outros de trouxa é incentivado pelo calendário. Caetano Veloso poderia pregar que o poder e a beleza da música são superiores à política cretina da Casa Branca; que sua mania de ser dissonante já derrubara patrulhas ideológicas no passado; que acha Donald Rumsfeld tão lindo quanto Bin Laden. Mas não. Coerente com a folhinha, lembrou que, em uma época de anti-americanização por todo o globo, ele estava remando contra a corrente mais uma vez - embora há mais de 30 anos a História não registre movimentos seus em direção oposta ao establishment.
Um conhecido jornalista da facção anfetamínico-eletrônica deu-se ao trabalho de calcular a centimetragem que os quatro principais jornais do País costumam destinar à Semana Caetano Veloso. Multiplicando o resultado pela tiragem desses mesmos jornais, chegou a um número fabuloso: com a quantidade de papel gasta para falar que o senhor Lavigne é o ser humano mais maravilhoso do mundo (depois de Morrissey, claro), daria para imprimir cerca de 120 mil cartilhas escolares para a população carente de Barra do Guabiraba, no agreste pernambucano. Essa coluna vem acrescentar mais exemplares à conta perversa.
Por Emerson Gasperin
Assim como existe a Fashion Week, o Ano Internacional do Idoso, o Mês da Desgraça e o Dia da Mentira, há a Semana Caetano Veloso. É o período que cerca o lançamento de um novo disco do artista, quando todas as mídias unem-se para ouvir o que o semi-deus de Santo Amaro da Purificação tem a dizer ao Brasil, ao mundo e, conforme a disposição da divindade, até ao planeta Sedna. Em intervalos irregulares - a última edição ocorrera em 2002 -, a realização do evento mobiliza veículos das mais variadas tendências políticas, religiosas e sexuais. O Caso Waldomiro, a dieta de Beverly Hills, o meio-campo do Flamengo, o vencedor do Big Brother, a descoberta da cura para a gota; nada escapa da opinião panorâmica do autodenominado “Velosão” (sic).
Engrossando o coro dos bafejados pela sapiência tropicalista, é seu recente trabalho - A Foreign Sound, composto por regravações de standards norte-americanos - que vai preencher as linhas de hoje. Em 23 faixas, Caetano Veloso visita clássicos de Irving Berlin, George Gershwin, Cole Porter, Duke Ellington, Stevie Wonder, Paul Anka, Bob Dylan e Elvis Presley, entre outros. Trata-se do tipo de empreitada que nem é necessário escutar para perceber que deve ser genial. Afinal, reúne clássicos que venceram as restrições do tempo cantadas pela voz que desafiou todas as convenções poéticas ao rimar “eta, eta, eta” com “Tieta”. Os arranjos? Ah, ninguém liga para isso. Mas, se ligasse, também constataria que são impecáveis, alternando-se entre a reverência pura e simples ao original e a rebeldia iconoclasta do mais famoso intérprete de Peninha.
Feita a descrição do produto, saltam ao estômago duas releituras. Uma, “Feelings”, é abordada de forma séria, hierática, como merece o hit supremo do ianque carioca Morris Albert. A outra, “Come As You Are”, desnuda a relação esquizofrênica que Caetano Veloso mantém com a banda de Kurt Cobain. Às vezes, o Nirvana “é um lixo, se comparado a Ivan Lins”. Às vezes, é o último sopro de renovação experimentado pelo rock. A julgar pela versão contida em A Foreign Sound, Caetano estava naqueles dias em que acreditava piamente na primeira opção. Fica a sugestão para que, caso seja tramado um Volume 2, ele não deixe de incluir “Longview”, do Green Day, e “Hey Ya”, do Outkast, que também renderiam discussões proctológicas acerca da integridade artística do projeto.
A especulação começou já na data marcada para apresentar a obra-prima à imprensa: 1º de abril, 40º aniversário do golpe de 1964 e dia em que fazer os outros de trouxa é incentivado pelo calendário. Caetano Veloso poderia pregar que o poder e a beleza da música são superiores à política cretina da Casa Branca; que sua mania de ser dissonante já derrubara patrulhas ideológicas no passado; que acha Donald Rumsfeld tão lindo quanto Bin Laden. Mas não. Coerente com a folhinha, lembrou que, em uma época de anti-americanização por todo o globo, ele estava remando contra a corrente mais uma vez - embora há mais de 30 anos a História não registre movimentos seus em direção oposta ao establishment.
Um conhecido jornalista da facção anfetamínico-eletrônica deu-se ao trabalho de calcular a centimetragem que os quatro principais jornais do País costumam destinar à Semana Caetano Veloso. Multiplicando o resultado pela tiragem desses mesmos jornais, chegou a um número fabuloso: com a quantidade de papel gasta para falar que o senhor Lavigne é o ser humano mais maravilhoso do mundo (depois de Morrissey, claro), daria para imprimir cerca de 120 mil cartilhas escolares para a população carente de Barra do Guabiraba, no agreste pernambucano. Essa coluna vem acrescentar mais exemplares à conta perversa.
11.2.04
O dia em que Tiazinha pintou na Bizz
Émerson Gasperin
Sem máscara e com uma saia de oncinha, Tiazinha pintou na Bizz para promover sua carreira de estrela do roque - aliás, o disco dela tem uma versão sensacional de "Rock and Roll All Nite", do Kiss ("Eu quero rock and roll all nite, quero dançar com você", diz o refrão). O louco era que nenhum dos caras da banda dela a chamava de Tiazinha, e sim de Suzana. "Quero abandonar essa personagem, sei dançar e cantar", justificava a artista. Logo a notícia de que Tiazinha estava entre nós espalhou-se pelo prédio da editora. Os boys se acotovelavam na porta da redação para ver, farejar, tocar a estrela. Do nada, surgiu uma máquina polaróide da redação vizinha. Uêba, fotos! Resolvi organizar a bagaça. Mandei os manos ficarem em fila e, um a um, eles entravam na redação, pegavam seu autógrafo, tiravam um retrato com Tiazinha e iam embora. O processo funcionou até que um deles chegou com a Playboy com ela na capa. Normal, não era o primeiro a exigir o jamegão da popstar sobre as curvas estampadas na revista. O constrangedor foi que, na maior desfaçatez, o gurizão abriu na página em que aparece a xiranha da cidadã em superclose e lascou: "Aí ó, Su, assinaqui", apontando para os grandes lábios da modelo. A bagunça que reinava no ambiente parou. "Su" olhou em volta sem saber se achava graça, se ficava ofendida ou se prosseguia sua tarde de autógrafos como se não houvesse acontecido nada. Cinco segundos de silêncio total pareceram uma eternidade. Para (tentar) aliviar a tensão, falei para a manada: "Que cabreirice é essa? Tudé arte, né, Suzana?". Aliviada, Tiazinha assentiu com um sorriso, assinou a foto (não no lugar que o boy queria, e sim em cima da virilha) e a programação transcorreu sem sobressaltos. Mas não apareceu mais ninguém com revista na mão para ela assinar.
(por Émerson Gasperin)
Émerson Gasperin
Sem máscara e com uma saia de oncinha, Tiazinha pintou na Bizz para promover sua carreira de estrela do roque - aliás, o disco dela tem uma versão sensacional de "Rock and Roll All Nite", do Kiss ("Eu quero rock and roll all nite, quero dançar com você", diz o refrão). O louco era que nenhum dos caras da banda dela a chamava de Tiazinha, e sim de Suzana. "Quero abandonar essa personagem, sei dançar e cantar", justificava a artista. Logo a notícia de que Tiazinha estava entre nós espalhou-se pelo prédio da editora. Os boys se acotovelavam na porta da redação para ver, farejar, tocar a estrela. Do nada, surgiu uma máquina polaróide da redação vizinha. Uêba, fotos! Resolvi organizar a bagaça. Mandei os manos ficarem em fila e, um a um, eles entravam na redação, pegavam seu autógrafo, tiravam um retrato com Tiazinha e iam embora. O processo funcionou até que um deles chegou com a Playboy com ela na capa. Normal, não era o primeiro a exigir o jamegão da popstar sobre as curvas estampadas na revista. O constrangedor foi que, na maior desfaçatez, o gurizão abriu na página em que aparece a xiranha da cidadã em superclose e lascou: "Aí ó, Su, assinaqui", apontando para os grandes lábios da modelo. A bagunça que reinava no ambiente parou. "Su" olhou em volta sem saber se achava graça, se ficava ofendida ou se prosseguia sua tarde de autógrafos como se não houvesse acontecido nada. Cinco segundos de silêncio total pareceram uma eternidade. Para (tentar) aliviar a tensão, falei para a manada: "Que cabreirice é essa? Tudé arte, né, Suzana?". Aliviada, Tiazinha assentiu com um sorriso, assinou a foto (não no lugar que o boy queria, e sim em cima da virilha) e a programação transcorreu sem sobressaltos. Mas não apareceu mais ninguém com revista na mão para ela assinar.
(por Émerson Gasperin)
9.1.04
O reveillón de Marques Casara
Saí de Floripa no meio da tarde e fui dormir em Morretes, a 50 quilômetros de Curitiba, algo do tipo "entre o mar e a montanha", três mil habitantes.
passei a virada de ano no alto da torre da igreja, em companhia de um simpático corcunda com problemas neurológicos, responsável por badalar o sino no momento exato da virada para 2004.
Homem de poucas palavras.
Entre 11 horas e meia noite tentei estabelecer um diálogo racional com ele, o que não consegui. Quando faltava dez para a meia noite o homem começou a ficar agitado. Andava de um lado para o outro, nervoso.
Eu e minha mulher éramos os únicos turistas no lugar. O homem agitava os braços e apontava para o alto da Igreja. "Vai pular", pensei.
A quatro minutos do novo ano o corcunda já estava fora de si. Balbuciava palavras esquisitas e apontava para o alto da Igreja.
Até que abriu uma porta lateral. Revelou-se uma escada de madeira velha e instável.
o Homem suava e agitava os braços em frente a escada.
___ "Está nos chamando" - comentei.
___ "Vai lá. Tô bem, aqui mesmo" - disse minha mulher.
___ "Vamos! Tá nos chamando para subir na torre".
E eis que a dois minutos do momento final subíamos a escada, aos tropeções. O corcunda gesticulava e pronunciava palavras só dele. A escada rangia. Nos degraus, imagens de santos, potes e velas cobertas de sujeira. Das paredes sem pintura vertia uma água enferrujada.
Ao chegarmos no alto da torre vimos a cidade iluminada pelas lâmpadas de natal.
Duas cordas pendiam da cúpula escura que guardava os sinos, alguns metros acima.
O corcunda enrolou uma corda em cada braço, olhou para o fosso da torre e projetou-se no vazio.
Os sinos responderam imediatamente. O corcunda sacolejava no buraco da torre. Os sinos gritavam o nascer de 2004.
o homem tinha uma impressionante habilidade para dar a cada sino uma cadência particular.
Quando tudo ficou em silêncio o homem desenrolou as cordas dos braços e limpou o suor da testa. Não disse nada. Desceu a escada, trancou a porta e caminhou em direção a uma rua escura. Vai pra casa, pensei.
Sentei na escadaria da igreja e fiquei com a imagem do corcunda. Quando ele parou de tocar os sinos, livrou-se das cordas e olhou nos meus olhos de um jeito que nunca vou esquecer. Percebi que aquele homem entendia o significado da vida. Queria ser como ele.
(Por Marques Casara)
Saí de Floripa no meio da tarde e fui dormir em Morretes, a 50 quilômetros de Curitiba, algo do tipo "entre o mar e a montanha", três mil habitantes.
passei a virada de ano no alto da torre da igreja, em companhia de um simpático corcunda com problemas neurológicos, responsável por badalar o sino no momento exato da virada para 2004.
Homem de poucas palavras.
Entre 11 horas e meia noite tentei estabelecer um diálogo racional com ele, o que não consegui. Quando faltava dez para a meia noite o homem começou a ficar agitado. Andava de um lado para o outro, nervoso.
Eu e minha mulher éramos os únicos turistas no lugar. O homem agitava os braços e apontava para o alto da Igreja. "Vai pular", pensei.
A quatro minutos do novo ano o corcunda já estava fora de si. Balbuciava palavras esquisitas e apontava para o alto da Igreja.
Até que abriu uma porta lateral. Revelou-se uma escada de madeira velha e instável.
o Homem suava e agitava os braços em frente a escada.
___ "Está nos chamando" - comentei.
___ "Vai lá. Tô bem, aqui mesmo" - disse minha mulher.
___ "Vamos! Tá nos chamando para subir na torre".
E eis que a dois minutos do momento final subíamos a escada, aos tropeções. O corcunda gesticulava e pronunciava palavras só dele. A escada rangia. Nos degraus, imagens de santos, potes e velas cobertas de sujeira. Das paredes sem pintura vertia uma água enferrujada.
Ao chegarmos no alto da torre vimos a cidade iluminada pelas lâmpadas de natal.
Duas cordas pendiam da cúpula escura que guardava os sinos, alguns metros acima.
O corcunda enrolou uma corda em cada braço, olhou para o fosso da torre e projetou-se no vazio.
Os sinos responderam imediatamente. O corcunda sacolejava no buraco da torre. Os sinos gritavam o nascer de 2004.
o homem tinha uma impressionante habilidade para dar a cada sino uma cadência particular.
Quando tudo ficou em silêncio o homem desenrolou as cordas dos braços e limpou o suor da testa. Não disse nada. Desceu a escada, trancou a porta e caminhou em direção a uma rua escura. Vai pra casa, pensei.
Sentei na escadaria da igreja e fiquei com a imagem do corcunda. Quando ele parou de tocar os sinos, livrou-se das cordas e olhou nos meus olhos de um jeito que nunca vou esquecer. Percebi que aquele homem entendia o significado da vida. Queria ser como ele.
(Por Marques Casara)
11.12.03
Manhã de sol I
Por Nilva Bianco
A rua reflete luz
amarela, quente e cheirosa.
A luz escorre pelas ?rvores,
pelas casas, desce a ladeira
e vai se derramar l? no mar.
Os braços compridos da luz
sem cerimônia
entram no meu quarto
varrem os restos
de escurid?o e fossa.
Tocam meus cabelos,
lambem meus olhos,
penetram meus sonhos.
Desperto.
Por Nilva Bianco
A rua reflete luz
amarela, quente e cheirosa.
A luz escorre pelas ?rvores,
pelas casas, desce a ladeira
e vai se derramar l? no mar.
Os braços compridos da luz
sem cerimônia
entram no meu quarto
varrem os restos
de escurid?o e fossa.
Tocam meus cabelos,
lambem meus olhos,
penetram meus sonhos.
Desperto.
19.11.03
O crepúsculo nem tão festivo da esquerda
Por Émerson Gasperin
Parecia uma boa idéia. Realizar a palestra com o histórico intelectual de esquerda em um bar, habitat natural das conspirações festivas que ele integrara. A euforia causada pelo álcool imprimiria um tom descontraído à conversa e, com sorte, estimularia o convidado ilustre a revelar inconfidências que não poupariam nem seus antigos sócios no monopólio da resistência. Jornalistas de ontem, hoje e amanhã lotariam as dependências para ouvir daquele senhor um relato impressionante sobre o período verde-oliva do Brasil, enquanto bebericavam algo e conferiam as silhuetas das jovens que flanavam pelo local. No mínimo, seria mais divertido do que ler os livros de Elio Gaspari. Correu tudo conforme o combinado. Ou seja, deu tudo errado.
Ultrapassando as expectativas etílicas a seu respeito, o histórico intelectual já chegou de porre. Havia passado a tarde inteira e o começo da noite em um boteco regando o verbo e alimentando sua lenda pessoal. Às 11, hora marcada para o compromisso, sua dicção estava mais embaralhada do que seu raciocínio. Até aí, nada que empanasse o folclore. A disputa pela atenção enfrentaria obstáculos mais graves: a abundância de espécimes felinas mais interessantes que o palestrante e o retorno ao Brasil de um colega que ficou 14 meses viajando pela parte do planeta que a administração Bush pretende transformar em uma gigantesca quadra de basquete. De repente, escutar as últimas de Cabul com um olho na estagiária ao lado seria mais útil à profissão do que descobrir métodos para driblar a Censura.
Contra o lendário subversivo, o colega tinha a seu favor todo o mistério do Islã e a cumplicidade de seus velhos conhecidos. Para arrematar, não se entendia nem escutava nada do que o tiozinho tentava falar, salvo o movimento de perdigotos em direção ao microfone. Não demorou muito para se perceber de onde viriam as revelações surpreendentes. O colega contava seu relacionamento com o Taleban ("é um movimento gay" ), a difícil sobrevivência em um ambiente de guerrilha ("pelo menos, o cigarro é barato" ) e o rigor das muçulmanas ("não interagi com nenhuma" ). À guisa de lembrança, sacou uma burca, medalhas alusivas à ocupação soviética, uma bandeira vermelha com o perfil de Lênin e um item que imediatamente se tornou objeto de culto e adoração: uma nota de 250 dinares com a efígie de Saddam Hussein, contrabandeada por soldados americanos.
Era novidade demais diante dos lugares comuns que o convidado tinha para expor. Inconscientemente ou não, ele reconheceu a batalha pelos holofotes como perdida e levantou-se, acometido por um ímpeto urinário. Acompanhado por um chargista (seu fã), dirigiu-se ao único banheiro do local. Ocupado. O chargista bateu na porta alertando para a emergência da situação, sem resposta. Então o intelectual declarou com a língua enrolada: "Não vai mais ter palestra nenhuma" . E baixou o olhar. A mancha escura em sua calça cáqui reproduzia o mapa do Chile, um filete que ia da virilha até a canela. O chargista ainda alegou que, se derrubasse cerveja em sua roupa, ninguém ia notar nada. Mas o clima - ou a atmosfera - já estava irremediavelmente comprometido. O sonho acabara.
Quase ninguém acusou a retirada do intelectual. Humilhado, o veterano de grandes causas perdidas, exemplo de valentia na sala de tortura e ícone da luta pela liberdade, voltou para o hotel sozinho, tendo de convencer um taxista a levá-lo naquele estado. Na saída, ainda foi interpelado por outro admirador: "Oi, sempre me inspirei em seu trabalho e..." "Pô, vocês aqui são f..." , interrompeu o prócer da imprensa combativa, antes de evaporar. Lá dentro, na mesa do fundo, o colega continuava com o ibope alto devido à milonga afegã, sem se importar com o destino de sua cédula de dinar. No banheiro, alheios ao drama nefrológico do intelectual, dois amigos do viajante faziam o que nem todo o poderio militar do Pentágono conseguiu: deixar o ditador iraquiano de cabelos brancos.
(por Emerson Gasperin)
Por Émerson Gasperin
Parecia uma boa idéia. Realizar a palestra com o histórico intelectual de esquerda em um bar, habitat natural das conspirações festivas que ele integrara. A euforia causada pelo álcool imprimiria um tom descontraído à conversa e, com sorte, estimularia o convidado ilustre a revelar inconfidências que não poupariam nem seus antigos sócios no monopólio da resistência. Jornalistas de ontem, hoje e amanhã lotariam as dependências para ouvir daquele senhor um relato impressionante sobre o período verde-oliva do Brasil, enquanto bebericavam algo e conferiam as silhuetas das jovens que flanavam pelo local. No mínimo, seria mais divertido do que ler os livros de Elio Gaspari. Correu tudo conforme o combinado. Ou seja, deu tudo errado.
Ultrapassando as expectativas etílicas a seu respeito, o histórico intelectual já chegou de porre. Havia passado a tarde inteira e o começo da noite em um boteco regando o verbo e alimentando sua lenda pessoal. Às 11, hora marcada para o compromisso, sua dicção estava mais embaralhada do que seu raciocínio. Até aí, nada que empanasse o folclore. A disputa pela atenção enfrentaria obstáculos mais graves: a abundância de espécimes felinas mais interessantes que o palestrante e o retorno ao Brasil de um colega que ficou 14 meses viajando pela parte do planeta que a administração Bush pretende transformar em uma gigantesca quadra de basquete. De repente, escutar as últimas de Cabul com um olho na estagiária ao lado seria mais útil à profissão do que descobrir métodos para driblar a Censura.
Contra o lendário subversivo, o colega tinha a seu favor todo o mistério do Islã e a cumplicidade de seus velhos conhecidos. Para arrematar, não se entendia nem escutava nada do que o tiozinho tentava falar, salvo o movimento de perdigotos em direção ao microfone. Não demorou muito para se perceber de onde viriam as revelações surpreendentes. O colega contava seu relacionamento com o Taleban ("é um movimento gay" ), a difícil sobrevivência em um ambiente de guerrilha ("pelo menos, o cigarro é barato" ) e o rigor das muçulmanas ("não interagi com nenhuma" ). À guisa de lembrança, sacou uma burca, medalhas alusivas à ocupação soviética, uma bandeira vermelha com o perfil de Lênin e um item que imediatamente se tornou objeto de culto e adoração: uma nota de 250 dinares com a efígie de Saddam Hussein, contrabandeada por soldados americanos.
Era novidade demais diante dos lugares comuns que o convidado tinha para expor. Inconscientemente ou não, ele reconheceu a batalha pelos holofotes como perdida e levantou-se, acometido por um ímpeto urinário. Acompanhado por um chargista (seu fã), dirigiu-se ao único banheiro do local. Ocupado. O chargista bateu na porta alertando para a emergência da situação, sem resposta. Então o intelectual declarou com a língua enrolada: "Não vai mais ter palestra nenhuma" . E baixou o olhar. A mancha escura em sua calça cáqui reproduzia o mapa do Chile, um filete que ia da virilha até a canela. O chargista ainda alegou que, se derrubasse cerveja em sua roupa, ninguém ia notar nada. Mas o clima - ou a atmosfera - já estava irremediavelmente comprometido. O sonho acabara.
Quase ninguém acusou a retirada do intelectual. Humilhado, o veterano de grandes causas perdidas, exemplo de valentia na sala de tortura e ícone da luta pela liberdade, voltou para o hotel sozinho, tendo de convencer um taxista a levá-lo naquele estado. Na saída, ainda foi interpelado por outro admirador: "Oi, sempre me inspirei em seu trabalho e..." "Pô, vocês aqui são f..." , interrompeu o prócer da imprensa combativa, antes de evaporar. Lá dentro, na mesa do fundo, o colega continuava com o ibope alto devido à milonga afegã, sem se importar com o destino de sua cédula de dinar. No banheiro, alheios ao drama nefrológico do intelectual, dois amigos do viajante faziam o que nem todo o poderio militar do Pentágono conseguiu: deixar o ditador iraquiano de cabelos brancos.
(por Emerson Gasperin)
3.10.03
31.3.03
Coca-cola e sangue (2)
Emerson Gasperin
Também tenho uma lembrança de Coca-cola e sangue.
Houve um tempo em que a maior embalagem de Coca-cola era a de 1 litro. Vinha numa garrafa de vidro grosso, com tampinha que precisava de um abridor para ser removida. Foi subindo as escadas do prédio em que morava com uma dessas na mão que escorreguei e caí. A cicatriz do corte, que quase amputou meu dedo médio, persiste até hoje. Acidentes à parte, o fato é que o litrão era suficiente para a família inteira. Feita a refeição, todo mundo tomava o seu copinho e arrotava satisfeito. Conforme a promoção, ainda se guardava a tampinha ("caquinho") para completar o Bingola Disney. Mas mudaram o nosso hábito - e tentar entender quando, por quê e como isso aconteceu é o enigma que desafia as Novas Gerações.
Se a memória não falha, surgiu a embalagem de 1,25 litro, ainda de vidro. Depois veio o mundo maravilhoso das pets: 600 mls, 2 litros e o litrão unitário. O vidro sumiu (que maravilha é achar bares que insistem em vender garrafinhas de 282 mls), os filhos não cortaram mais os dedos. O abridor, coitado, caiu no ostracismo, bem como simpatias para que o gás do resto que ia parar na geladeira não escapasse (lá em casa, a mania era colocar uma colherzinha no gargalo). Bastaria desatarraxar a tampinha para liberar o acesso àquele rio preto e melado. Com o desejo saciado, o freguês enroscaria a tampinha novamente e garantiria futuros copos gaseificados para escoar a digestão.
Pois o futuro chegou e o mais intrigante nem é que a tal novidade tecnológica continua deixando o gás escapar. A questão é: por que antes o litrão dava para pai, mãe e três fihos, e hoje dois litros são poucos para uma refeição de um simples casal? É um plano da Coca para dominar a Terra. Como qualquer candidato a revolucionário deve saber, a água é o petróleo do século 21. Estudos afirmam que o planeta tem reservas suficientes para durar até 2023. E, pouco a pouco, a multinacional dos refrigerantes estaria adquirindo os mananciais existentes.
A idéia é que,quando a água faltar, o líquido que a gente vai querer beber para matar a sede será Coca-cola. O terrorismo midiático acerca do iminente esgotamento das reservas potáveis é patrocinado pela própria Coca-cola, ávida para colocar sua estratégia em prática. Em resumo, ficaremos todos dependentes da bebida, se não pelo seu sabor, por ser a única opção no mercado e por, inconscientemente, estarem nos obrigando a tomar quantidades crescentes para atingir a satisfação. Pode ver, já tem até uma embalagem de 2,5 litros.
O cenário é assustador. Pessoas necessitando de Coca-cola em doses cavalares, e a companhia lançando embalagens maiores. Chegará um ponto em que a imagem de senhoras pelas ruas arrastando garrafões pretos de 20 litros (também pet) vai se transformar em corriqueira. Uma geração marcada por problemas estomacais e, pelo esforço em transportar os "contêineres" de Coca para suas casas, por lesões irreversíveis na coluna.
O problema do gás que escapa, esse continua insolúvel - mas toda vez que olho para a cicatriz que enfeia minha mão, lembro quanto o colonialismo pode ser perigoso...
(por Emerson Gasperin)
Emerson Gasperin
Também tenho uma lembrança de Coca-cola e sangue.
Houve um tempo em que a maior embalagem de Coca-cola era a de 1 litro. Vinha numa garrafa de vidro grosso, com tampinha que precisava de um abridor para ser removida. Foi subindo as escadas do prédio em que morava com uma dessas na mão que escorreguei e caí. A cicatriz do corte, que quase amputou meu dedo médio, persiste até hoje. Acidentes à parte, o fato é que o litrão era suficiente para a família inteira. Feita a refeição, todo mundo tomava o seu copinho e arrotava satisfeito. Conforme a promoção, ainda se guardava a tampinha ("caquinho") para completar o Bingola Disney. Mas mudaram o nosso hábito - e tentar entender quando, por quê e como isso aconteceu é o enigma que desafia as Novas Gerações.
Se a memória não falha, surgiu a embalagem de 1,25 litro, ainda de vidro. Depois veio o mundo maravilhoso das pets: 600 mls, 2 litros e o litrão unitário. O vidro sumiu (que maravilha é achar bares que insistem em vender garrafinhas de 282 mls), os filhos não cortaram mais os dedos. O abridor, coitado, caiu no ostracismo, bem como simpatias para que o gás do resto que ia parar na geladeira não escapasse (lá em casa, a mania era colocar uma colherzinha no gargalo). Bastaria desatarraxar a tampinha para liberar o acesso àquele rio preto e melado. Com o desejo saciado, o freguês enroscaria a tampinha novamente e garantiria futuros copos gaseificados para escoar a digestão.
Pois o futuro chegou e o mais intrigante nem é que a tal novidade tecnológica continua deixando o gás escapar. A questão é: por que antes o litrão dava para pai, mãe e três fihos, e hoje dois litros são poucos para uma refeição de um simples casal? É um plano da Coca para dominar a Terra. Como qualquer candidato a revolucionário deve saber, a água é o petróleo do século 21. Estudos afirmam que o planeta tem reservas suficientes para durar até 2023. E, pouco a pouco, a multinacional dos refrigerantes estaria adquirindo os mananciais existentes.
A idéia é que,quando a água faltar, o líquido que a gente vai querer beber para matar a sede será Coca-cola. O terrorismo midiático acerca do iminente esgotamento das reservas potáveis é patrocinado pela própria Coca-cola, ávida para colocar sua estratégia em prática. Em resumo, ficaremos todos dependentes da bebida, se não pelo seu sabor, por ser a única opção no mercado e por, inconscientemente, estarem nos obrigando a tomar quantidades crescentes para atingir a satisfação. Pode ver, já tem até uma embalagem de 2,5 litros.
O cenário é assustador. Pessoas necessitando de Coca-cola em doses cavalares, e a companhia lançando embalagens maiores. Chegará um ponto em que a imagem de senhoras pelas ruas arrastando garrafões pretos de 20 litros (também pet) vai se transformar em corriqueira. Uma geração marcada por problemas estomacais e, pelo esforço em transportar os "contêineres" de Coca para suas casas, por lesões irreversíveis na coluna.
O problema do gás que escapa, esse continua insolúvel - mas toda vez que olho para a cicatriz que enfeia minha mão, lembro quanto o colonialismo pode ser perigoso...
(por Emerson Gasperin)
28.3.03
Coca-cola e sangue
Josemar Sehnen, sobre o boicote à coca-cola:
Eu tiro de letra esse lance de eliminar a coca-cola do cardápio. Pra mim, Coca-cola e sangue, sempre estiveram relacionados. A vida não era fácil quando pequeno lá em São Carlos. Pra ter presunto no café da manhã levou um tempo. Iogurte e outras guloseimas só eventualmente e o delicioso liquido preto só em dias especiais. E aquele domingo era um deles: visita de parente, primos, brincadeiras e churrasco. Já na mesa, todos apostos, papai, do alto do seu poder de decisão disse:
- nego, vai lá no Simon e compra refrigerante.
Já saia correndo com a cabeça borbulhando feito uma garrafa de coca-cola recém aberta, quando ouço atraz de mim:
- dois litros...
Nossa, aquilo...como direi... foi música para meus ouvidos. No caminho, esfuziante e saltitante quase rolei as escadas como que num prenúncio.
Domingo, meio dia, venda fechada. Nada, no entanto, me impediria de levar pra casa aqueles DOIS litros de coca-cola. Nem mesmo o mal humor característico do seu Simon, o dono da venda. Articulado, gritei o nome da filha dele, que tinha a minha idade e com quem brincava nas intermináveis tardes de domingo. Quem apareceu, porém, foi corpulento pai da garota mastigando o almoço.
- Dois litros de coca, disse convicto, sem esperar manifestação do, naquele momento, assustador "seu Simon". Diante da minha convicção, não teve alternativa senão trazer os dois litros geladinhos. água na boca. Abracei as garrafas e disparei. E correndo tudo subi as escadas, um, dois, três, quatro degraus. Do quinto não passei.
Coca-cola e sangue.
(By Josema)
Josemar Sehnen, sobre o boicote à coca-cola:
Eu tiro de letra esse lance de eliminar a coca-cola do cardápio. Pra mim, Coca-cola e sangue, sempre estiveram relacionados. A vida não era fácil quando pequeno lá em São Carlos. Pra ter presunto no café da manhã levou um tempo. Iogurte e outras guloseimas só eventualmente e o delicioso liquido preto só em dias especiais. E aquele domingo era um deles: visita de parente, primos, brincadeiras e churrasco. Já na mesa, todos apostos, papai, do alto do seu poder de decisão disse:
- nego, vai lá no Simon e compra refrigerante.
Já saia correndo com a cabeça borbulhando feito uma garrafa de coca-cola recém aberta, quando ouço atraz de mim:
- dois litros...
Nossa, aquilo...como direi... foi música para meus ouvidos. No caminho, esfuziante e saltitante quase rolei as escadas como que num prenúncio.
Domingo, meio dia, venda fechada. Nada, no entanto, me impediria de levar pra casa aqueles DOIS litros de coca-cola. Nem mesmo o mal humor característico do seu Simon, o dono da venda. Articulado, gritei o nome da filha dele, que tinha a minha idade e com quem brincava nas intermináveis tardes de domingo. Quem apareceu, porém, foi corpulento pai da garota mastigando o almoço.
- Dois litros de coca, disse convicto, sem esperar manifestação do, naquele momento, assustador "seu Simon". Diante da minha convicção, não teve alternativa senão trazer os dois litros geladinhos. água na boca. Abracei as garrafas e disparei. E correndo tudo subi as escadas, um, dois, três, quatro degraus. Do quinto não passei.
Coca-cola e sangue.
(By Josema)
20.3.03
"Talvez amanhã aconteça de pararmos na rua para amarrar os cadarços
Ou quem sabe chova e o guarda-chuva esteja em casa
Agora mesmo Amanda me pediu pra ver Alice no país das Maravilhas
Eu resisti: queria ver as notícias de uma guerra que já me contam há meses
Da qual já se sabe o número de possíveis mortos e vivos
E de mortos-vivos
Mundo das Sete Maravilhas
Amanda está vendo Alice, em seguida deve dormir
Amanhã talvez a guerra já estará em seu primeiro dia
Amanda vai pra escola cedo
Espero não esquecer o guarda-chuvas, nem cair por conta dos sapatos"
Adri
(por Adriane Canan)
Ou quem sabe chova e o guarda-chuva esteja em casa
Agora mesmo Amanda me pediu pra ver Alice no país das Maravilhas
Eu resisti: queria ver as notícias de uma guerra que já me contam há meses
Da qual já se sabe o número de possíveis mortos e vivos
E de mortos-vivos
Mundo das Sete Maravilhas
Amanda está vendo Alice, em seguida deve dormir
Amanhã talvez a guerra já estará em seu primeiro dia
Amanda vai pra escola cedo
Espero não esquecer o guarda-chuvas, nem cair por conta dos sapatos"
Adri
(por Adriane Canan)
16.2.03
Lua cheia, céu claro, temperatura agradável. A madrugada que entra pela varanda tem um hálito misterioso.
O coração bate em compasso. Provavelmente está vivo.
Que fantasmas rondam as marginais? O que dizem teus olhos? O que dizem?
Marchou contra a guerra. Ao final, bebeu uma Coca-Cola e fumou um Marlboro.
Depois, foi ao cinema ver Nêmesis, a bomba da semana, com aquele chato do Data.
Se o Oscar não vem a nós, Caetano vai até ele.
Ai, que saudades do senhor Checov.
Nada como a vida ao ar livre.
(por Marques Casara)
O coração bate em compasso. Provavelmente está vivo.
Que fantasmas rondam as marginais? O que dizem teus olhos? O que dizem?
Marchou contra a guerra. Ao final, bebeu uma Coca-Cola e fumou um Marlboro.
Depois, foi ao cinema ver Nêmesis, a bomba da semana, com aquele chato do Data.
Se o Oscar não vem a nós, Caetano vai até ele.
Ai, que saudades do senhor Checov.
Nada como a vida ao ar livre.
(por Marques Casara)
15.2.03
12.1.03
21.12.02
A verdadeira profissão mais velha do mundo
Zé Dassilva
Muitas inverdades têm sido contadas sobre a origem da humanidade. Uma delas é aquela conversa de que a profissão mais velha do mundo é a... você sabe... aquela em que... ah, a prostituição! Pronto, falei.
* * *
Mas algum escavador já descobriu um esqueleto de mulher com 15 mil anos, rodando uma bolsinha de pterodátilo? E alguém achou uma nota de dinheiro – ou um punhado de sal, vá lá – junto da ossada de alguma prostituta das cavernas? Se não tem indícios científicos, então é tudo difamação! Na aurora da humanidade, a mulher levava uma cacetada na cabeça e era arrastada pelo pretendente. E pra quê isso? Pra, milhares de anos depois, ser chamada de... bem, você sabe. E, se somos todos descendentes daquelas senhoras, então seríamos todos filhos da... Ah, não podemos continuar acreditando nisso!
* * *
Na verdade, desenhista é a profissão mais velha do mundo! E isso ninguém pode negar, pois ficou registrado. Poucas pessoas sabem desenhar hoje, e naquela época não devia ser muito diferente. Era mais ou menos assim: na caverna, à noite, o desenhista reunia a platéia para reconstituir a grande caçada. Ele tinha o privilégio de não caçar: apenas acompanhava a missão a fim de registrar tudo – e com crachá de imprensa, é bem possível.
* * *
Para animar o banquete, o artista desenhava a cena na parede da caverna. As pinturas rupestres garantiam a ele aplausos e a primeira remuneração da história da humanidade. O desenhista saía de lá com um pedaço de mamute assado, que mal dava para carregar. Era preciso achar alguém, nem que fosse um “alguém” momentâneo, para dividir aquela riqueza. Foi aí que nasceu a prostituição.
(por Zé Dassilva)
Zé Dassilva
Muitas inverdades têm sido contadas sobre a origem da humanidade. Uma delas é aquela conversa de que a profissão mais velha do mundo é a... você sabe... aquela em que... ah, a prostituição! Pronto, falei.
* * *
Mas algum escavador já descobriu um esqueleto de mulher com 15 mil anos, rodando uma bolsinha de pterodátilo? E alguém achou uma nota de dinheiro – ou um punhado de sal, vá lá – junto da ossada de alguma prostituta das cavernas? Se não tem indícios científicos, então é tudo difamação! Na aurora da humanidade, a mulher levava uma cacetada na cabeça e era arrastada pelo pretendente. E pra quê isso? Pra, milhares de anos depois, ser chamada de... bem, você sabe. E, se somos todos descendentes daquelas senhoras, então seríamos todos filhos da... Ah, não podemos continuar acreditando nisso!
* * *
Na verdade, desenhista é a profissão mais velha do mundo! E isso ninguém pode negar, pois ficou registrado. Poucas pessoas sabem desenhar hoje, e naquela época não devia ser muito diferente. Era mais ou menos assim: na caverna, à noite, o desenhista reunia a platéia para reconstituir a grande caçada. Ele tinha o privilégio de não caçar: apenas acompanhava a missão a fim de registrar tudo – e com crachá de imprensa, é bem possível.
* * *
Para animar o banquete, o artista desenhava a cena na parede da caverna. As pinturas rupestres garantiam a ele aplausos e a primeira remuneração da história da humanidade. O desenhista saía de lá com um pedaço de mamute assado, que mal dava para carregar. Era preciso achar alguém, nem que fosse um “alguém” momentâneo, para dividir aquela riqueza. Foi aí que nasceu a prostituição.
(por Zé Dassilva)
19.12.02
O jovem, a camiseta e o hippie neoliberal
Emerson Gasperin
(texto publicado em 9 de janeiro de 2001)
Um dos poucos integrantes do elenco fixo dessa coluna é Zé Dassilva. Com seu talento, tramou uma rede de fontes de renda para desfrutar Florianópolis na plenitude. Chargista, roteirista e, para quebrar a lista de "istas", escritor, ele abana um leque de opções na hora de arrancar o dinheiro do freguês. É um bon vivant, ainda que isso tenha lhe custado algumas pregas. E ainda mora com os pais, o paxá. Nasceu no dia 31 de dezembro e, quando ouviu todos aqueles fogos, achou que estavam celebrando sua chegada à Terra. Repetindo piadas surradas como essa e manejando com habilidade os diferentes ambientes que freqüenta, Zé Dassilva consegue gozar de razoável destaque na imprensa catarinense. Um bom sujeito, capaz de ações filantrópicas sem cunho promocional.
Como não pôde reclamar do ano que passou, Zé decidiu comemorar seu aniversário em grande estilo. Juntou-se a dois chapas que também sopravam velinhas por perto, Rubinho e Josemar, e alugou uma escuna para festejar data tão significativa. A saída seria de um trapiche no meio da Beira-Mar. Cerca de 40 convidados, bebida e sons que variavam dos populares Red Hot Chili Peppers a particularidades criciumenses como uma coletânea do Rush. Era quase meia-noite quando os três anfitriões decidiram zarpar.
Velhos amigos, alguns casados com amigas, todo mundo amigo. Todo mundo rindo e fofocando sem falar de lembranças ou tentando evocar um tempo que já foi. Pela primeira vez, as reminiscências não dominavam o papo. No máximo, um "como está a fulana?" seguido de "hi, casou, tem um filhinho, não sabias?" para não negar o passado. Depois de quase dez anos assimilando o golpe que a maturidade representou, era hora de olhar para frente, comentar política, contar como vive, enfim, essas coisas que a gente descamba a fazer a partir do momento que as condições de financiamento da Caixa Econômica Federal tornam-se mais importantes do que a volta do Cult.
Mas não deixava de ser um bom presságio. A idade adulta chegou e nem doeu. Agora somos todos homenzinhos, que declaram Imposto de Renda, pagam prestrações e planejam. Ostentamos um dinheiro que nunca tivemos antes e nos consideramos mais inteligentes e sofisticados. Até as roupas mudaram. Já estava quase me achando um vencedor quando tocou o celular do Zé. Era o Mutley, que havia se atrasado e perdido a barca, dizendo que esperava no trapice. Detalhe 1: o passeio atingia seu ápice, a poucos metros da ponte Hercílio Luz, toda iluminada para os festejos de fim de ano - e para celebrar o nascimento do Zé, tolinho. Detalhe 2: Mutley mora no prédio em frente ao lugar que a escuna estava atracada.
A escuna, célere, aproximava-se da ponte. A lua, depois de um início de noite encoberta pela chuva, insinuava-se pelos lados do sul da Ilha. Sammy Davis Jr. (onde é que o Zé foi arrumar isso?) saía dos alto-falantes. A ponte, cada vez mais perto. A lua, cada vez maior. Sammy Davis, cada vez mais alto. A ponte. A lua. Sammy. A ponte. Uma faixa em homenagem ao Guga. Zé quebrou o transe, mostrando que as 27 primaveras e a dinheirada que administra o transformaram em um homem de decisões de impacto. Ordenou a meia-volta.
O comandante atendeu prontamente. Girou todo o timão para a esquerda, como quem dá um cavalo-de-pau. Uôôôôôôôô.... Sem vômitos, pois, tratam-se de adultos. À uma e meia o Mutley não era somente uma silhueta manchando o visual da Beira Mar. Na verdade, desde meados de 2000 que ele não mora mais ali. Ali moram seus pais, pomba! Ele está em São Paulo, desfilando seu senso de humor e causando sensações estranhas no microcosmo alternativo. Ainda espera com mais ansiedade o novo do Teenage Fanclub do que o décimo-terceiro. Alheios ao desfecho dessa comovente polaróide de amor fraternal, casais responsáveis abandonaram o barco. Deles é que iríamos falar mal na segunda parte da viagem.
Ao colocar o pé direito na murada, deu para ver o que está escrito na camiseta rosa de Mutley: "Lésbica." O maior desgosto para um cara que veste algo assim é não despertar comentário. Nada falei. Não precisou, algum desavisado já caiu no truque. Tentei começar o milênio impregnado de vibrações positivas. Com a cabeça infestada de aromas e o pensamento embargado por gesto tão nobre - abortar o ponto alto da festa só para pegar o amigo goiaba - tive a nítida certeza de que preciso voltar para essa cidade e, aqui, realizar minha grande obra. Seja um livro, uma horta ou uma câmara de defumação. Olha a ponte aí de novo.
(por Emerson Gasperin)
Emerson Gasperin
(texto publicado em 9 de janeiro de 2001)
Um dos poucos integrantes do elenco fixo dessa coluna é Zé Dassilva. Com seu talento, tramou uma rede de fontes de renda para desfrutar Florianópolis na plenitude. Chargista, roteirista e, para quebrar a lista de "istas", escritor, ele abana um leque de opções na hora de arrancar o dinheiro do freguês. É um bon vivant, ainda que isso tenha lhe custado algumas pregas. E ainda mora com os pais, o paxá. Nasceu no dia 31 de dezembro e, quando ouviu todos aqueles fogos, achou que estavam celebrando sua chegada à Terra. Repetindo piadas surradas como essa e manejando com habilidade os diferentes ambientes que freqüenta, Zé Dassilva consegue gozar de razoável destaque na imprensa catarinense. Um bom sujeito, capaz de ações filantrópicas sem cunho promocional.
Como não pôde reclamar do ano que passou, Zé decidiu comemorar seu aniversário em grande estilo. Juntou-se a dois chapas que também sopravam velinhas por perto, Rubinho e Josemar, e alugou uma escuna para festejar data tão significativa. A saída seria de um trapiche no meio da Beira-Mar. Cerca de 40 convidados, bebida e sons que variavam dos populares Red Hot Chili Peppers a particularidades criciumenses como uma coletânea do Rush. Era quase meia-noite quando os três anfitriões decidiram zarpar.
Velhos amigos, alguns casados com amigas, todo mundo amigo. Todo mundo rindo e fofocando sem falar de lembranças ou tentando evocar um tempo que já foi. Pela primeira vez, as reminiscências não dominavam o papo. No máximo, um "como está a fulana?" seguido de "hi, casou, tem um filhinho, não sabias?" para não negar o passado. Depois de quase dez anos assimilando o golpe que a maturidade representou, era hora de olhar para frente, comentar política, contar como vive, enfim, essas coisas que a gente descamba a fazer a partir do momento que as condições de financiamento da Caixa Econômica Federal tornam-se mais importantes do que a volta do Cult.
Mas não deixava de ser um bom presságio. A idade adulta chegou e nem doeu. Agora somos todos homenzinhos, que declaram Imposto de Renda, pagam prestrações e planejam. Ostentamos um dinheiro que nunca tivemos antes e nos consideramos mais inteligentes e sofisticados. Até as roupas mudaram. Já estava quase me achando um vencedor quando tocou o celular do Zé. Era o Mutley, que havia se atrasado e perdido a barca, dizendo que esperava no trapice. Detalhe 1: o passeio atingia seu ápice, a poucos metros da ponte Hercílio Luz, toda iluminada para os festejos de fim de ano - e para celebrar o nascimento do Zé, tolinho. Detalhe 2: Mutley mora no prédio em frente ao lugar que a escuna estava atracada.
A escuna, célere, aproximava-se da ponte. A lua, depois de um início de noite encoberta pela chuva, insinuava-se pelos lados do sul da Ilha. Sammy Davis Jr. (onde é que o Zé foi arrumar isso?) saía dos alto-falantes. A ponte, cada vez mais perto. A lua, cada vez maior. Sammy Davis, cada vez mais alto. A ponte. A lua. Sammy. A ponte. Uma faixa em homenagem ao Guga. Zé quebrou o transe, mostrando que as 27 primaveras e a dinheirada que administra o transformaram em um homem de decisões de impacto. Ordenou a meia-volta.
O comandante atendeu prontamente. Girou todo o timão para a esquerda, como quem dá um cavalo-de-pau. Uôôôôôôôô.... Sem vômitos, pois, tratam-se de adultos. À uma e meia o Mutley não era somente uma silhueta manchando o visual da Beira Mar. Na verdade, desde meados de 2000 que ele não mora mais ali. Ali moram seus pais, pomba! Ele está em São Paulo, desfilando seu senso de humor e causando sensações estranhas no microcosmo alternativo. Ainda espera com mais ansiedade o novo do Teenage Fanclub do que o décimo-terceiro. Alheios ao desfecho dessa comovente polaróide de amor fraternal, casais responsáveis abandonaram o barco. Deles é que iríamos falar mal na segunda parte da viagem.
Ao colocar o pé direito na murada, deu para ver o que está escrito na camiseta rosa de Mutley: "Lésbica." O maior desgosto para um cara que veste algo assim é não despertar comentário. Nada falei. Não precisou, algum desavisado já caiu no truque. Tentei começar o milênio impregnado de vibrações positivas. Com a cabeça infestada de aromas e o pensamento embargado por gesto tão nobre - abortar o ponto alto da festa só para pegar o amigo goiaba - tive a nítida certeza de que preciso voltar para essa cidade e, aqui, realizar minha grande obra. Seja um livro, uma horta ou uma câmara de defumação. Olha a ponte aí de novo.
(por Emerson Gasperin)
31.10.02
Os bodes do presidente
Marques Casara
Domingo à noite eu estava sentado numa fileira de cadeiras dispostas em um dos auditórios do hotel Intercontinental, no centro financeiro de São Paulo. Umas 200 pessoas esperavam o presidente eleito, a maioria formada por representantes de governos estrangeiros. À direita eu tinha um gringo que não conseguia ficar sentado. Nervoso, olhava o relógio e perguntava o tempo todo: viene el presidente?
Si, si, viene el presidente, eu respondia.
Meu pensamento estava longe. Pensava: Ele vai levar os bodes? Será que vai mesmo levar os bodes?
Lá na frente tinha um telão retransmitindo a Globo: comentaristas informavam sobre a apuração. Na minha esquerda estava minha mulher, enrolada numa bandeira vermelha e branca. Ao lado dela, uma senhora chorava com abundância. Uns 60 anos de idade, bem vestida, advogada. Repetiu dezenas de vezes a seguinte frase: “fomos muito discriminados, fomos muito discriminados”. Depois contou que é uma pessoa rica e que há 15 anos ficou amiga de Marisa da Silva. Tudo mudou a partir de então. Decidiu abraçar a causa operária. Virou motivo de chacota e preconceito no bairro de elite onde vive.
- Todas as minhas amigas me abandonaram, mas agora nós vencemos.
E chorava lagrimas que contivera durante décadas.
Duas fileiras adiante estava a mulher da América Central, corpo todo marcado pelos combates na selva. Guerra química aplicada pelos americanos, segundo disse, e que deixou sua pele como a de um crocodilo. Ao lado dela tinha um homem muito velho com um desenho estranho no braço.
- O que é esse desenho?
- Não é desenho, filho. É um número. Um dia fui um número no campo de concentração....
Pensei: tem aqui uma turminha bem heterogênea.
Mais a frente tava o Zé Dirceu, o Mercadante, a Marta. Quando a Benedita entrou o auditório quase veio abaixo. Poucos minutos antes,na TV, Lula havia dito que Benedita era a primeira negra a assumir um cargo de governadora, e que isso era tão importante quanto a abolição da escravatura. Disse com as palavras dele, carregadas de emoção e que não consigo reproduzir.
- Viene el presidente? Si, viene!!
E eu com a idéia fixa: será que vai levar os bodes?
Os pasteizinhos haviam terminado e só restavam farelos nas bandejas quando o Lula entrou no auditório. Seus olhos brilhavam de um jeito que nunca vou esquecer. Todos levantaram, bateram palmas, cantaram, gritaram e deram graças. Falou 15 minutos. Não consegui prestar atenção. Pensava nos bodes. Passei o segundo turno inteiro pensando nos bodes do Lula.
Faltava um mês para a eleição quando ele tocou no tema. Estava na chácara que tem São Bernardo, sentado numa grande mesa de madeira ao ar livre, a espera do almoço dominical. Fazia um sol de rachar e era um dos poucos dias de folga do candidato. As 10 da manhã Marisa havia decretado: é proibido falar de trabalho. E ai, é claro, todos ficaram sem assunto. As crianças jogavam bola no quintal, as mulheres preparavam a salada, os homens ajudavam no fogão. Música caipira no 3 em 1. Fiquei pensando se era o mesmo 3 em 1 que o Collor havia dito que era melhor que o dele. Deveria ser, pois a sonoridade era péssima.
O Lula tava sentado na grande mesa. Dia de folga, nem pra cozinha foi.
- Sabe, tem uma coisa que às vezes eu fico imaginando – disse ele.
- São esses meus bodes que eu tenho aqui na chácara, essa meia dúzia de bodes que tão ali naquele cercadinho.
Abriu os braços e fez um movimento amplo, como a libertar os bodes do pequeno curral.
- Eu fico pensando nesses bodes todos pastando naquele gramado que tem em volta do Palácio do Planalto, aquela graminha verde e tenra que tem em volta da casa do presidente.
E riu da própria piada. Pegou um violão que tinha em cima da mesa e caminhou até a rede. Pediu para o filho trazer o outro violão e ficaram lá, ensaiando uma moda.
Segunda feira passada falou na televisão ao meio dia, na condição de presidente eleito. São Paulo parou. As pessoas que caminhavam no centro se amontoaram em frente aos bares para assistir o pronunciamento. Os funcionários deixaram de lado o que faziam e ligaram a televisão, o rádio de pilhas. Os taxistas do ponto deixaram a conversa de lado e aumentaram o volume do rádio.
O que está acontecendo?
É o Lula, o presidente. Está fazendo o pronunciamento.
Não era a final da copa do mundo. Era o presidente agradecendo ao povo. Não falou dos bodes. Mas falou de união, de respeito, de dignidade. Falou de esperança.
Sinto-me um bode libertado.
(por Marques Casara)
Marques Casara
Domingo à noite eu estava sentado numa fileira de cadeiras dispostas em um dos auditórios do hotel Intercontinental, no centro financeiro de São Paulo. Umas 200 pessoas esperavam o presidente eleito, a maioria formada por representantes de governos estrangeiros. À direita eu tinha um gringo que não conseguia ficar sentado. Nervoso, olhava o relógio e perguntava o tempo todo: viene el presidente?
Si, si, viene el presidente, eu respondia.
Meu pensamento estava longe. Pensava: Ele vai levar os bodes? Será que vai mesmo levar os bodes?
Lá na frente tinha um telão retransmitindo a Globo: comentaristas informavam sobre a apuração. Na minha esquerda estava minha mulher, enrolada numa bandeira vermelha e branca. Ao lado dela, uma senhora chorava com abundância. Uns 60 anos de idade, bem vestida, advogada. Repetiu dezenas de vezes a seguinte frase: “fomos muito discriminados, fomos muito discriminados”. Depois contou que é uma pessoa rica e que há 15 anos ficou amiga de Marisa da Silva. Tudo mudou a partir de então. Decidiu abraçar a causa operária. Virou motivo de chacota e preconceito no bairro de elite onde vive.
- Todas as minhas amigas me abandonaram, mas agora nós vencemos.
E chorava lagrimas que contivera durante décadas.
Duas fileiras adiante estava a mulher da América Central, corpo todo marcado pelos combates na selva. Guerra química aplicada pelos americanos, segundo disse, e que deixou sua pele como a de um crocodilo. Ao lado dela tinha um homem muito velho com um desenho estranho no braço.
- O que é esse desenho?
- Não é desenho, filho. É um número. Um dia fui um número no campo de concentração....
Pensei: tem aqui uma turminha bem heterogênea.
Mais a frente tava o Zé Dirceu, o Mercadante, a Marta. Quando a Benedita entrou o auditório quase veio abaixo. Poucos minutos antes,na TV, Lula havia dito que Benedita era a primeira negra a assumir um cargo de governadora, e que isso era tão importante quanto a abolição da escravatura. Disse com as palavras dele, carregadas de emoção e que não consigo reproduzir.
- Viene el presidente? Si, viene!!
E eu com a idéia fixa: será que vai levar os bodes?
Os pasteizinhos haviam terminado e só restavam farelos nas bandejas quando o Lula entrou no auditório. Seus olhos brilhavam de um jeito que nunca vou esquecer. Todos levantaram, bateram palmas, cantaram, gritaram e deram graças. Falou 15 minutos. Não consegui prestar atenção. Pensava nos bodes. Passei o segundo turno inteiro pensando nos bodes do Lula.
Faltava um mês para a eleição quando ele tocou no tema. Estava na chácara que tem São Bernardo, sentado numa grande mesa de madeira ao ar livre, a espera do almoço dominical. Fazia um sol de rachar e era um dos poucos dias de folga do candidato. As 10 da manhã Marisa havia decretado: é proibido falar de trabalho. E ai, é claro, todos ficaram sem assunto. As crianças jogavam bola no quintal, as mulheres preparavam a salada, os homens ajudavam no fogão. Música caipira no 3 em 1. Fiquei pensando se era o mesmo 3 em 1 que o Collor havia dito que era melhor que o dele. Deveria ser, pois a sonoridade era péssima.
O Lula tava sentado na grande mesa. Dia de folga, nem pra cozinha foi.
- Sabe, tem uma coisa que às vezes eu fico imaginando – disse ele.
- São esses meus bodes que eu tenho aqui na chácara, essa meia dúzia de bodes que tão ali naquele cercadinho.
Abriu os braços e fez um movimento amplo, como a libertar os bodes do pequeno curral.
- Eu fico pensando nesses bodes todos pastando naquele gramado que tem em volta do Palácio do Planalto, aquela graminha verde e tenra que tem em volta da casa do presidente.
E riu da própria piada. Pegou um violão que tinha em cima da mesa e caminhou até a rede. Pediu para o filho trazer o outro violão e ficaram lá, ensaiando uma moda.
Segunda feira passada falou na televisão ao meio dia, na condição de presidente eleito. São Paulo parou. As pessoas que caminhavam no centro se amontoaram em frente aos bares para assistir o pronunciamento. Os funcionários deixaram de lado o que faziam e ligaram a televisão, o rádio de pilhas. Os taxistas do ponto deixaram a conversa de lado e aumentaram o volume do rádio.
O que está acontecendo?
É o Lula, o presidente. Está fazendo o pronunciamento.
Não era a final da copa do mundo. Era o presidente agradecendo ao povo. Não falou dos bodes. Mas falou de união, de respeito, de dignidade. Falou de esperança.
Sinto-me um bode libertado.
(por Marques Casara)
17.10.02
Cidade dos homens
Marques Casara
Muita gente não gostou. Também quero dar minha opinião. Não acho que a série seja ruim. Acho até muito boa, bem escrita e bem dirigida. Esteticamente requintada e muito bem fotografada. Tem poucos efeitos especiais e usa muito a câmera na mão, o que dá esse efeito realista. Acho também que a TV Globo deixou para trás boa parte daquela mania de retratar um Brasil irreal, inclusive no Jornal Nacional. Na linha de show, as telenovelas há muito se tornaram um produto de grande valor cultural. Têm um papel central no processo de formação do imaginário brasileiro, o que é maravilhoso. Temos a mania de ver a cultura popular por uma perspectiva elitista e extremamente conservadora, baseada em modelos lineares. Conhecemos um pouco mais do que nosso próprio bairro e gostamos de palpitar a partir de valores preconcebidos. Numa perspectiva teórica, acho que a base da transformação social não está no emissor (TV Globo), mas no receptor (nós e as donas de casa). Cidade dos homens retrata o dia-a-dia a partir do receptor das mensagens e dos excluídos socialmente. Por isso achamos uma merda. Pertencemos a uma classe média que não gosta de ser esquecida na programação. Quando acontece, nos apavoramos. Estão de parabéns a TV Globo e a produtora O2.
Por Marques Casara
Marques Casara
Muita gente não gostou. Também quero dar minha opinião. Não acho que a série seja ruim. Acho até muito boa, bem escrita e bem dirigida. Esteticamente requintada e muito bem fotografada. Tem poucos efeitos especiais e usa muito a câmera na mão, o que dá esse efeito realista. Acho também que a TV Globo deixou para trás boa parte daquela mania de retratar um Brasil irreal, inclusive no Jornal Nacional. Na linha de show, as telenovelas há muito se tornaram um produto de grande valor cultural. Têm um papel central no processo de formação do imaginário brasileiro, o que é maravilhoso. Temos a mania de ver a cultura popular por uma perspectiva elitista e extremamente conservadora, baseada em modelos lineares. Conhecemos um pouco mais do que nosso próprio bairro e gostamos de palpitar a partir de valores preconcebidos. Numa perspectiva teórica, acho que a base da transformação social não está no emissor (TV Globo), mas no receptor (nós e as donas de casa). Cidade dos homens retrata o dia-a-dia a partir do receptor das mensagens e dos excluídos socialmente. Por isso achamos uma merda. Pertencemos a uma classe média que não gosta de ser esquecida na programação. Quando acontece, nos apavoramos. Estão de parabéns a TV Globo e a produtora O2.
Por Marques Casara
24.9.02
É 2002 e você só quer um outro lugar para ir
Émerson Gasperin
Ao lado de Nelson Motta, Angeli inventou o rock brasileiro como o conhecemos hoje. Se o produtor, compositor, jornalista e outras profissões que não exigem diploma forjou condições favoráveis para que surgisse o mainstream, o quadrinista ocupou-se dos tipinhos do udigrudi – e teve papel fundamental na consolidação das tribos. Mais ou menos assim: até havia punks em São Paulo, mas ficou muito mais fácil identificá-los depois da criação de Bob Cuspe. Aliás, neguinho ficava com muito mais vontade de ser punk por causa do Bob Cuspe do que pelo João Gordo. Para os roqueiros decadentes, tinha o Oliveira Junky. Tornando os hippies engraçados, Wood & Stock. E metaleiros, rastas, groupies, gigolôs; de Angeli não escapou nenhum.
Ainda hoje, aparentemente sem intenção direta, ele continua a retratar com fidelidade os perfis que surgem nas prateleiras do pop mundial e que tentarão crescer e se multiplicar por estas terras. O último contemplado por sua sagacidade é o grupo The Vines. Sim, os moleques de Sydney que, segundo relatos inflados, irão reger o universo ao lado de Strokes, White Stripes e The Hives. Angeli nem sabe disso, mas, toda vez que desenha o Comando Revolucionário Kurt Cobain, de sua prancheta brotam também os diálogos e inspirações que norteiam a existência e o faturamento dos kids australianos. O feito do cartunista só não merece mais relevo porque qualquer roteirista mixuruca bolaria um troço similar aos Vines.
Os caras parecem mais fictícios – no sentido de “elaborados” por alguém – do que os Gorillaz. O release oficial da gravadora sobre seu disco de estréia, Highly Evolved, informa: “O álbum soa como um adolescente isolado que passa o tempo ouvindo álbuns clássicos através de fones de ouvido, em volume letal, até que as influências mais cruas o levam a um gravador de quatro canais, vindas direto de seus corações e de seus amplificadores pulsantes”. Tirando a parte de passar o tempo isolado com amplificadores pulsantes, que é coisa da juventude esquisitona anglo-saxônica, poderia descrever também o Catedral, o Cogumelo Plutão, o Surto ou outro talento que esparrama sua genialidade pelo dial.
Festejou-se, então, uma suposta semelhança com o Nirvana (com certeza dono de um dos tais “álbuns clássicos” ouvidos pelos fones de ouvido do adolescente), provocada principalmente pela pegada grunge de Get Free. Para o bem da criançada, a propaganda cometeu um equívoco, pois aquilo é puro Stone Temple Pilots. De resto, o mais próximo que os Vines aproximam-se de Kurt Cobain é ao remeter a Meat Puppets (que o suicida adorava) no rock Sunshinin. Ouve-se, isso sim, é muita balada (algumas com solo de guitarra e tudo), um skazinho (Factory) e rocks passageiros como Ain’t No Room, In The Jungle e 1969 – que, com seus seis minutos de duração, é um épico de uma profundidade que uma formiguinha atravessaria com água pelo joelho.
É nas letras, porém, que os Vines confirmam suas ligações com o Comando Revolucionário Kurt Cobain. São 18 “yeah”, 18 “ah”, cinco “oh e 36 “hey” em seis das 12 músicas que compõem o CD, algumas com mais de um requinte onomatopaico. Nesse quesito, Factory é imbatível, com um refrão que berra (de acordo com a grafia no encarte) “aaaaaaaaaahhhhhh hey ah hey”. Ai, ai. Quanta injustiça com o Silverchair, que ainda ostenta um drama pessoal e intransferível a lhe emprestar pungência. Seria o caso de recomendar Echo Dek, do Primal Scream, se o fotógrafo e videasta Matias Maxx não tivesse tatuado “dub” na canela e descoberto que a palavra pode ser lida de trás para frente no espelho. Enquanto ele se exibe levantando a calça em sapatarias, fixemo-nos em Evil Heat, a nova tiração de onda “screamadelica”.
(por Emerson Gasperin)
Émerson Gasperin
Ao lado de Nelson Motta, Angeli inventou o rock brasileiro como o conhecemos hoje. Se o produtor, compositor, jornalista e outras profissões que não exigem diploma forjou condições favoráveis para que surgisse o mainstream, o quadrinista ocupou-se dos tipinhos do udigrudi – e teve papel fundamental na consolidação das tribos. Mais ou menos assim: até havia punks em São Paulo, mas ficou muito mais fácil identificá-los depois da criação de Bob Cuspe. Aliás, neguinho ficava com muito mais vontade de ser punk por causa do Bob Cuspe do que pelo João Gordo. Para os roqueiros decadentes, tinha o Oliveira Junky. Tornando os hippies engraçados, Wood & Stock. E metaleiros, rastas, groupies, gigolôs; de Angeli não escapou nenhum.
Ainda hoje, aparentemente sem intenção direta, ele continua a retratar com fidelidade os perfis que surgem nas prateleiras do pop mundial e que tentarão crescer e se multiplicar por estas terras. O último contemplado por sua sagacidade é o grupo The Vines. Sim, os moleques de Sydney que, segundo relatos inflados, irão reger o universo ao lado de Strokes, White Stripes e The Hives. Angeli nem sabe disso, mas, toda vez que desenha o Comando Revolucionário Kurt Cobain, de sua prancheta brotam também os diálogos e inspirações que norteiam a existência e o faturamento dos kids australianos. O feito do cartunista só não merece mais relevo porque qualquer roteirista mixuruca bolaria um troço similar aos Vines.
Os caras parecem mais fictícios – no sentido de “elaborados” por alguém – do que os Gorillaz. O release oficial da gravadora sobre seu disco de estréia, Highly Evolved, informa: “O álbum soa como um adolescente isolado que passa o tempo ouvindo álbuns clássicos através de fones de ouvido, em volume letal, até que as influências mais cruas o levam a um gravador de quatro canais, vindas direto de seus corações e de seus amplificadores pulsantes”. Tirando a parte de passar o tempo isolado com amplificadores pulsantes, que é coisa da juventude esquisitona anglo-saxônica, poderia descrever também o Catedral, o Cogumelo Plutão, o Surto ou outro talento que esparrama sua genialidade pelo dial.
Festejou-se, então, uma suposta semelhança com o Nirvana (com certeza dono de um dos tais “álbuns clássicos” ouvidos pelos fones de ouvido do adolescente), provocada principalmente pela pegada grunge de Get Free. Para o bem da criançada, a propaganda cometeu um equívoco, pois aquilo é puro Stone Temple Pilots. De resto, o mais próximo que os Vines aproximam-se de Kurt Cobain é ao remeter a Meat Puppets (que o suicida adorava) no rock Sunshinin. Ouve-se, isso sim, é muita balada (algumas com solo de guitarra e tudo), um skazinho (Factory) e rocks passageiros como Ain’t No Room, In The Jungle e 1969 – que, com seus seis minutos de duração, é um épico de uma profundidade que uma formiguinha atravessaria com água pelo joelho.
É nas letras, porém, que os Vines confirmam suas ligações com o Comando Revolucionário Kurt Cobain. São 18 “yeah”, 18 “ah”, cinco “oh e 36 “hey” em seis das 12 músicas que compõem o CD, algumas com mais de um requinte onomatopaico. Nesse quesito, Factory é imbatível, com um refrão que berra (de acordo com a grafia no encarte) “aaaaaaaaaahhhhhh hey ah hey”. Ai, ai. Quanta injustiça com o Silverchair, que ainda ostenta um drama pessoal e intransferível a lhe emprestar pungência. Seria o caso de recomendar Echo Dek, do Primal Scream, se o fotógrafo e videasta Matias Maxx não tivesse tatuado “dub” na canela e descoberto que a palavra pode ser lida de trás para frente no espelho. Enquanto ele se exibe levantando a calça em sapatarias, fixemo-nos em Evil Heat, a nova tiração de onda “screamadelica”.
(por Emerson Gasperin)
23.8.02
Sobre Paris
(duas ou três considerações, de rua ou de sonho)
Adriane Canan
"Os pés em Paris/Negros como o breu da noite/ Os pés em Paris/ Panos coloridos como um sábado/ Os pés em Paris/ Negros olhos transfigurados num ocidente antropófago/O menino é romeno, chora na mão pelo dinheiro que pede/ Chora a mãe no ventre pelos filhos que carrega/ Choram os pés em Paris/ (Barulho do metrô) /Silêncio nas ruas sepultadas de história/ O peso da cultura nos olhos absortos do intelectual/ E a bicha velha que importa o corpo-menino-asiático por pão e sexo/ O rio gelado e os turistas medíocres que posam de ricos ao som de Edith Piaf/ Os grandes pintores pendurados nas paredes do Louvre/ (Barulho de passos no corredor)/ Arte vale muito?/ A Torre Eiffel e os souvenirs de pobre/ A Place Vendome e a morte da nobre-plebéia-donzela-prostituta que trepava com o milionário egípcio/ Armani,Mont Blanc/ O homem aluga o menino para pedir esmolas/Os pés em Paris/ (Sonho com o Pablo)/ As escadarias de Nogent-Sur-Marne e a tranquilidade na casa da Irina/ As putas-travestis-argelinas do Kadet/ Fotos pra ficar na festa/Os olhos azuis da Lara percorrem a escola de artes/ E a alemã ex-comunista foi para os Estados Unidos do World Trade Center/ (Penso na Amanda)/ O português arrota arrogância e come seus próprios eus/ As baianas são negras como os negros da Estação Les Halles/ Os andinos não recebem palmas/ Os judeus fazem doces no Mares e jogam bombas nos palestinos/ Enquanto o Mc Donalds de Paris tem cabelo no Big Mac/ A França vota numa eleição silenciosa como a morte/Sem pombos/ Uma capa de chuva verde-limão e um dia livre para compras em Paris/ Pausa."
Adriane Canan
(duas ou três considerações, de rua ou de sonho)
Adriane Canan
"Os pés em Paris/Negros como o breu da noite/ Os pés em Paris/ Panos coloridos como um sábado/ Os pés em Paris/ Negros olhos transfigurados num ocidente antropófago/O menino é romeno, chora na mão pelo dinheiro que pede/ Chora a mãe no ventre pelos filhos que carrega/ Choram os pés em Paris/ (Barulho do metrô) /Silêncio nas ruas sepultadas de história/ O peso da cultura nos olhos absortos do intelectual/ E a bicha velha que importa o corpo-menino-asiático por pão e sexo/ O rio gelado e os turistas medíocres que posam de ricos ao som de Edith Piaf/ Os grandes pintores pendurados nas paredes do Louvre/ (Barulho de passos no corredor)/ Arte vale muito?/ A Torre Eiffel e os souvenirs de pobre/ A Place Vendome e a morte da nobre-plebéia-donzela-prostituta que trepava com o milionário egípcio/ Armani,Mont Blanc/ O homem aluga o menino para pedir esmolas/Os pés em Paris/ (Sonho com o Pablo)/ As escadarias de Nogent-Sur-Marne e a tranquilidade na casa da Irina/ As putas-travestis-argelinas do Kadet/ Fotos pra ficar na festa/Os olhos azuis da Lara percorrem a escola de artes/ E a alemã ex-comunista foi para os Estados Unidos do World Trade Center/ (Penso na Amanda)/ O português arrota arrogância e come seus próprios eus/ As baianas são negras como os negros da Estação Les Halles/ Os andinos não recebem palmas/ Os judeus fazem doces no Mares e jogam bombas nos palestinos/ Enquanto o Mc Donalds de Paris tem cabelo no Big Mac/ A França vota numa eleição silenciosa como a morte/Sem pombos/ Uma capa de chuva verde-limão e um dia livre para compras em Paris/ Pausa."
Adriane Canan
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