26.1.06

15.12.05

Um complemento à entrevista abaixo: do baú de Adriana Kuchler saíram também estas três caricaturas inéditas, em que Frank, Zé Dassilva e Bonson retrataram uns aos outros.




Frank por Zé Dassilva





Zé por Bonson.



Bonson por Frank

14.12.05

Em maio de 2001 a repórter Adriana Kuchler reuniu, num etílico papo de mesa de bar, três dos principais chargistas de Santa Catarina: Frank Maia, Zé Dassilva e Sérgio Bonson, que morreu na semana passada. Falaram de jornalismo, arte, censura, inspiração e mais um monte de coisa. A entrevista terminou de um jeito inusitado. Esse texto ia ser publicado no Zero, jornal-laboratório do curso de jornalismo da UFSC, mas o jornal não foi impresso e o material permanecia inédito até agora. Bom proveito.

~

Uma estranha no ninho

Com muita cachaça na cabeça, os três principais cartunistas de Santa Catarina se juntaram para falar sobre jornalismo, censura e política. Com Bonson, Frank Maia, Zédassilva e um intruso desconhecido juntos não dava pra esperar uma conversa séria: a entrevista terminou em porrada. Muito bem encenada.

Vocês acham que o que vocês fazem é jornalismo?
Frank Maia- Porra, é puro jornalismo. A diferença entre eu e o cara que escreve é justamente porque eu não sei escrever e ele não sabe desenhar. Só essa diferença.
Bonson- Eu discordo desse cara aí.
FM- Ele não discorda nada. Ele tá bêbado.
B- Eu discordo.
FM- Eu acho que o que a gente faz é jornalismo puro, o que a gente faz é entender a situação, a gente tem um trabalho de articulista, de colunista, de editor, é um trabalho... A gente lê tudo que acontece no dia, seleciona o principal fato. É como selecionar manchete do jornal. A gente dá a nossa opinião, é como se a gente fosse um articulista, um editorialista.
Zédassilva- A diferença é que a gente não ganha nada.
B- Eu discordo. Eu acho que... Eu discordo e concordo. Eu não sou mineiro mas eu discordo e concordo ao mesmo tempo. Eu acho o seguinte: que como jornalista, realmente aí eu tô na área, a gente realmente é jornalista. Mas eu acho que a gente às vezes pode fazer uma charge sobre a manchete, factualérrima, né? Mas também pode fazer uma charge como um articulista de fundo.
FM- Isso não é ser jornalista, né?
B- Ah, porra, mas tem uma diferença de tempo. Tem a longa duração e a curta duração. Então, por exemplo, um cartunista que nós dois admiramos, o Angeli. Não é a Angelita, a Angelita nós dois também admiramos. Ahhh! (Risos) Então eu acho que a gente trabalha pra jornal e evidentemente ninguém escreve tese acadêmica, né? ( Os outros conversam.) Mas assim... Ô animal, isso tem que sair na entrevista, é um crima, não é RBS aqui. (Risos). Seguinte, fulaninho (incompreensível), ele faz charges metafísicas, sobre a condição humana, se aproveita de um fato banal, da miséria, aquela que ele faz debaixo do viaduto, miserê e tarará, aquilo são cartuns. São meditações pela condição humana.
FM- Filosofada.
B- Filosofada, mas bem filosofada. Não é que são bem desenhadas, né, diga-se de passagem. Não tem literatice, ele faz muito bem isso.
Revista- Então ele não é jornalista?
B- Não. Ele é jornalista.
FM- Então, cara.
B- Mas eu fiz uma pequena distinção, animal.
Zé- Chama do jeito que for pra chamar, cara. Jornalismo, eu acho que é assim, tu pegar a informação e filtrar ela pro leitor, ou pro telespectador ou pro ouvinte. Então, se a charge é isso, então também é jornalismo. Mas eu acho que é um pouco mais que jornalismo. É jornalismo-arte.
FM- Jornalismo é arte? Lembra aquela discussão?
B- OLHA EU...
FM- Não precisa gritar. Não precisa impor a sua opinião.
B- É que quando eu bebo eu fico enfático.
FM- Então pára de beber. O que eu penso é o seguinte: charge é jornalismo sim, não tem jeito. O Bonson discordou e acabou concordando.
B- Eu discordei e concordei, cavalo.
FM- É lógico. Porque o que a gente faz é que o invés de escrever, a gente desenha.
B- Exatamente.
FM- Então porque você tá discordando? Muita cachaça na mente, acontece isso, né Zé? ... O Zé tá dormindo. O Zé babou.
Revista- Isso vai ser registrado na entrevista. Agora cada um pode falar quem vocês mais gostam de zoar? O político, o personagem...
B- O careca. O Amin, porra.
FM- Olha, quem eu mais gosto de zoar é o contraste. Não é a zueira grátis, o que eu gosto de zoar é sacar o absurdo e colocar isso na charge.
Revista- Dá um exemplo.
FM- Um exemplo é o cara roubar dois bilhões da Sudam e você não saber quantos zeros tem isso. O cara roubar dois bilhões da Sudene. Não, dois bilhões e quinhentos, ganhou, e tu não saber quantos zeros tem isso. Enquanto tu tá se cagando pra cobrir o cheque especial. É isso. Tem um cara ganhando 180 de salário mínimo. (Chega o intruso) Quem é esse cara aí?
Zé- É o camera man.
FM- É esse contraste que eu gosto de zoar pra ver se os caras mexem o rabo. O Casseta e Planeta tinha uma camiseta que eu acho linda que é “Ê povinho bunda”, entendeu? Porque nós fizemos uma puta exposição “O povo tem mais é que se fuder” é justamente sobre isso. O cara se fode, chega na próxima eleição o cara troca o voto por uma carrada de brita, por um tijolo, por um banheiro na casa dele. Porra, tem mais é que se fuder quem pensa assim.
Zé- Ô, deixa eu dizer uma coisa: o Frank tá ficando chato. Ele tá falando muito sério.
FM- Desculpa, Zé.
Zé- Pra mim, acho que é o Amin, mas eu gosto de pegar também duas coisas que não tem nada a ver e fazer uma relação com elas. Tipo: o Fernandinho Beiramar foi preso, fazer uma relação dele com os senadores que tão aí pra ser cassados. Uma vez eu misturei um lance da novela com um lance do Itamar, que depois saiu na Veja, foi publicada. Acho que é uma fórmula legal, misturar duas coisas que não tem nada a ver.
Revista- Que charge você gostariam de fazer mas não fariam porque com certeza seriam censurados?
B- (se dirigindo ao Frank) Ah, por exemplo, aquela que eu te mandei por e-mail que era pornoca. Era o FHC nu, numa cadeira, e aí ele tá com o pinto, a Nadir tá chupando e o FHC tá dizendo “Ah, dona Nadir, sabia que a senhora ia entender o espírito da coisa. É pra botar a boca nesse trombone.” Aí ele teve uma reação moralista.
FM- Eu fiquei chocado. Eu só acho que o Bonson tá numa idade que tá precisando cruzar. Só pensa nisso.
Revista- E você?
FM- Acho que não tem essa. Eu faço o que eu quero, o que eu acho que é certo. A censura não vai vir de mim.
Revista- Não existe nenhum assunto proibido?
Zé- Em todos os jornais que eu trabalhei aconteceu isso. Em algumas o cara até se passa, como essa aí do Bonson. Não é censurado. O cara diz assim “ Você quer publicar isso, bicho? Vai tu pra rua e eu.” Teu chefe te fala.
FM- Eu trabalho num jornal, eu sei qual é a linha do jornal, que tipo de piada eu posso fazer. Se eu quiser ser censurado, amanhã eu sou censurado. Só que eu não sou burro. Eu posso fazer as coisas de um jeito que eu não seja censurado.
Revista- Mas você já foi censurado.
FM- Olha, de cinco anos de charge, uma vez, uma editora, que eu adorava, chegou pra mim e falou “Você pode publicar essa charge”.
B- Qual era a charge?
FM- Não vou falar.
Todos- Ahhh...
B- Fala! Fala! Fala!
FM- Se vocês querem ser heróis, eu não quero ser herói. Ela falou assim “Você pode publicar essa charge, mas amanhã vai dar uma merda isso aí. Você tem outra charge?” Eu falei “Eu tenho mais 20 charges”, “Pode pegar uma dessas suas 20 charges e colocar no jornal amanhã pra gente não se incomodar.” Eu falei “ótimo”. Eu trabalho numa empresa, eu não tenho um jornal meu. Eu já tive. Eu sei que tem um monte de questões comerciais. Vem com essa ilusãozinha, sou combativo. Vai se fuder. Não existe isso. O cara fala do ACM, tudo bem. Agora, fala do carinha daqui, que anuncia aqui, que sustenta o jornal aqui. Não tem essa ingenuidade. Não existe mais isso. O Bonson já foi processado já ganhou uma grana por causa disso.
B- Já fui pra rua do jornal.
Revista- De qual jornal?
B- Ah, o nome do jornal? Será que merece ser citado?
Revista- Claro.
B- É o Estado. Aquela coisa lá. Aquele jornal filha da puta, que ele me deve um acordo judicial e não paga.
FM- Aproveita e manda um recado.
B- O Comelli aquele ladrão filho da puta. Outras vezes eu fui aconselhado, aí o Frank tem razão, que a gente tem que ter um bom senso. Se as Casas Pernambucanas, se é que ainda existem, anunciam no jornal, você não vai fazer uma charge metendo pau nas Casas Pernambucanas. Agora, isso aí , tu pode driblar falando do capitalismo em geral e tal.
Revista- Mas por que você foi processado?
B- Pois é, é que quando começou a abertura, eu pensei “liberou geral”. Como o Figueiredo gostava de cavalos, eu botei um cavalo com quatro estrelas. Aí ligaram pro jornal e pediram a minha cabeça. “Ah, vai tira esse cara.” Outra vez eu fui censurado, eu prestei um serviço de utilidade pública porque era um cara duma companhia, esqueci o nome agora. Tinha uma companhia que explorava ilegitimamente, ilegalmente um pedaço da ilha do Campeche. Aí eu soube que o delegado do SPU, do Serviço do Patrimônio da União, tinha dado três mil metros pra Pioneira da Costa. Aí eu fiz uma charge, botei os dois num barco e o dono da Pioneira da Costa jogando uma rede, pegando três mil metros e o cara dizendo “Legal, chefe, por enquanto pegamos três mil metros.” Aí ele me processou e se fodeu porque eu ganhei o processo. Então, eu acho que nessas situações tem mais é que fazer porque é um serviço de utilidade pública.
FM- O teu currículo ficou enriquecido?
B- Eu acho.
FM- Eu também.
Revista- Existe algum tipo de competição entre vocês?
FM - NÃO. (finge dar um soco no Bonson. Risos.) Existe o seguinte: paralelismo de idéias, às vezes nem é com o Zé, nem com o Bonson. Às vezes, você faz uma charge e tem um cara mané lá em Pindamonhangaba que faz uma charge igualzinha à minha. Outro dia o Bonson me passou um e-mail e ele falou “Olha, bicho, imagina, a Nadir sendo sanduichada pelo ACM e pelo Arruda.” Filho da puta lá em Brasília fez a charge e eu mandei pra ele. Olha aqui, pensou igualzinho. É o paralelismo de idéias. Já aconteceu do Zé fazer charge igual a minha, o Bonson, eu fazer igual a deles. Normal.
Revista- O que vocês fazem quando não tem nenhum acontecimento importante no dia? ( o intruso, que vinha incomodando desde o começo da entrevista, fala sem parar)
FM- Quando não tem nada importante...
B- (Pro desconhecido) Ô Jacaré, cala a tua boca. CALA A BOCA! (E o cara continua.)
FM- Vou comprar uma bengala.
Zé- Se não tiver nada acontecendo, sempre vai ter o jornal, vai ter que ter manchete. Sempre vai ter alguma coisa acontecendo. Pode fazer em cima de alguma coisa que já aconteceu. No dia seguinte, deu uma repercutida. Tipo, caiu a plataforma da Petrobrás, isso é assunto pra semana inteira.
B- Cala a boca! PÁRA DE ENCHER O SACO! PORRA!
FM- Hehehe. Esse é o meu velhinho. O lance é o seguinte: nada é mais velho do que jornal de ontem. Essa frase...
B- (sempre falando pro cara) Tá querendo o quê?
Revista- É da primeira fase.
FM- É da primeira fase. Tutorial one.
B- Quê?
FM- Tutorial one. Hã! Agora eu eruditizei.
B- É aramaico?
FM- É aramaico. Todo dia muda alguma coisa. Todo dia tem uma manchete.
B- Todo dia tu muda a cueca, por exemplo.
FM- Tu não porque tu não usa cueca.
B- Ah, eu não. É verdade.
Zé- Pior que eu não tô usando também.
FM- Eu acho que o jornalismo que a gente faz, todo dia tem alguma coisa que mudou. Às vezes, o assunto é fraco, a gente pena. A gente pensa na piada velha, vamos reformular. Tem dia de agonia, mas os dias que a gente anda vivendo ultimamente, não tem agonia. Tem abundância de assunto. Tem uma overdose de coisa.
Zé- Olha, hoje, por exemplo, teve o negócio do Fernandinho Beiramar. ( Frank e Bonson se abraçam e ficam cochichando). Olha que momento bonito! Levaram ele pra Brasília, iam levar pro Rio, levaram pra Brasília. A charge tá pronta. O assunto já nasce...
Revista- Que charge que você fez?
Zé- Que ele tava indo lá pra dar autógrafo pros políticos. Esse é o caso que a notícia já nasce ridícula.
Revista- Vocês três são cartunistas dos principais jornais do estado. Existe mercado pra quem quiser ser cartunista aqui?
FM- NÃO. Inclusive, eu queria aconselhar os novos cartunistas a procurar outro ramo de emprego. No Paraná, tá precisando, no Acre. Em Rondônia, tem vaga pra cartunista iniciante. E eu quero mandar um abraço pro Romeu, pro Fred, pra aquela galera lá e mandar eles pro inferno. (Risos)
Revista- Vocês desaconselham, então?
B- Desaconselho. O que que a gente desaconselha mesmo?
FM- Mentira. A gente adora eles, mas é melhor eles fazerem outra coisa na vida. Parece que vai rolar o concurso dos correios. Fala pro Fred e pro Romeu fazerem o concurso dos correios.
B- CALA ESSA BOCA, CARA! (o estranho continua a se meter na conversa)Revista.- Vocês trabalham em outras áreas do jornalismo além da charge?
Zé- O cara faz o que o mercado pede porque tu precisa. Muitas vezes, fiquei fazendo editoração pra ganhar a vida. E as vezes alguém precisa de um texto, tu escreve.
B- CALA A BOCA, RAPAZ. VAI TOMAR NO CU.
Zé- Fica, assim, de noite, pensando como ganhar. Cada um tem um jeito.
B- CARA CHATO. (Bonson avança no sujeito.) SAI PRA LÁ, SEU PENTELHO. PORRA. SAI DAQUI, MEU. SAI DAQUI QUE EU VOU TE ENFIAR PORRADA.
Bonson dá uns socos no cara, enquanto o Frank tenta segurá-lo. O outro nem se mexe. Confusão na livraria. Arrastam cadeiras e mesas. Ninguém sabe o que fazer. Acabam botando o cara pra fora. Depois da briga Frank vem confessar que estimulou Bonson a partir pra cima do intrometido:
- Vai, que eu te seguro.
Bonson ainda tentou se justificar:
- Nós tamos ali e o cara tá o tempo todo interrompendo e eu falava “Cala a boca. Cala a boca.” Cada vez num tom mais alto. Aí, por um processo químico, o cara perde o controle. Eu perdi o controle. Tá louco. Gravasse isso? Vou tomar uma outra agora pra...

9.9.05


Severino Cavalcanti na marca do p?nalti. Xarj de Frank. Posted by Picasa

A Tutu. Foto Dauro Veras, 2005. Posted by Picasa

Crian?as bolivianas. Foto de Yan Boechat, agosto de 2005. Posted by Picasa

10.9.04

fiambres gasperin

9.7.04

25.6.04

25.5.04

Política externa

9.5.04

Direto do Salão Oval, por Zé Dassilva


19.4.04

Dez microcontos
Por Dauro Veras

Assalto 1: perdeu ganhou
O otário era a cara do seu filho. Toma aí: grana pro ônibus.
~
Assalto 2: perdeu perdeu
O otário parecia seu filho, aquele ingrato. Passou-lhe o rodo.
~
Atraso
Um minuto mais cedo e pegaria o vôo fatídico. Cu pra lua.
~
Destino
Teria sido amor à primeira vista, mas ela dobrou a esquina.
~
Desilusão
Deu-lhe casa, comida, roupa lavada. Nada pediu. Nem ganhou.
~
Para Bandini
Ao ver o carro capotado, o cachorrinho riu. Fim da fuga, pneu.
~
Gato incompreendido
Trouxe uma oferenda - grátis -, mas ela gritou: "Barata!"
~
Reflexivo
Pensou em revidar o tapa, mas perdera o tempo e o espaço.
~
Impulsivo
Revidou o tapa de imediato. Até hoje não sabe se agiu bem.
~
O corno e o segredo desvendado
Abriu a porta em silêncio. Viu, chorou, fez a mala e se foi.
Uniforme de trabalho
Por Diógenes Botelho

O uniforme de trabalho está sempre impecável. Muleta lustrada, bandagem na perna trocada a cada 12 horas, calça jeans arregaçada até o joelho da perna esquerda. Pentinho flamengo sempre no bolso da camisa de flanela e uma caixinha de sapatos, cuidadosamente forrada com papel de presente, pousada na murada. Elias dos Santos, 47 anos, cumpre expediente das 8 às 18 horas na porta do anexo II da Câmara dos Deputados, em Brasília. Seu escritório é emoldurado por uma grande gamela branca, virada de boca para baixo.

Vive de esmolas desde 1981. Desembarcou na capital federal, vindo do Piauí, carregando na trouxa de farinha de puba o sonho de progredir no Planalto Central. Filho do semi-árido nordestino, da seca e dos desmandos dos coronéis, Santos trabalhou como servente, pedreiro e chegou a mestre de obras. No dia 17 de setembro de 1995 uma laje caiu sobre sua perna, amputando os sonhos de futuro melhor para os seis filhos com dona Jacira, uma cabloca miudinha de Picos.

O tilintar de moedas é escasso na caixinha, notas muito raras. Por dia, em "dias bons", tira no máximo R$ 10. "Quem mais dá é quem não usa gravata e doa o troco do ônibus", conta o sertanejo que esbarra diariamente com políticos famosos e estrelas da mídia. Mas não reclama da vida. Construiu uma casinha em Planaltina e um dos filhos, Brasilino, vai fazer vestibular esse ano. "Quero que ele vire doutô, que use gravata e que dê pelo menos uma muedinha pra quem precisa".

12.4.04

(em construção)
Por Nilva Bianco

Só porque lhe sorri
Dia desses uma senhora me olhou
como se eu fosse um anjo
Anjo, eu?!
Se fosse, teria que lavar com creolina
Minhas asas negras de poluição,
Se fosse, seria estraçalhado pelos helicópteros
no céu da cidade.
Se fosse anjo,
Teria que acudir meninos atordoados,
consolar mendigos e desvalidos,
amparar velhos de barbas sujas.
Guiá-los até o juízo final.
Sofrer com a dor alheia.
Amar incondicionalmente.
Dia desses uma senhora me olhou
como se eu fosse um anjo
Anjo, eu?
Não, foi só distração.
Campos Elíseos
Por Nilva Bianco


Na avenida,
Manhãzinha ainda,
desfile de tipos:
estoquistas, balconistas, analistas
a caminho da lida.
Meninas saídas dos inferninhos
precisam dormir,
exauridas de strip-teases,
uísque de quinta
e rapidinhas que aliviam
o holerith dos imbecis.
As marquises
viram abrigos de famílias
e meninos encardidos.
A pinga é antídoto pro frio,
pãozinho dormido
alivia a barriga vazia,
mijo se infiltra no piche da avenida.
Nas padarias,
dobradinha a cinco pila
e azia de brinde pro dia.
Na esquina, polícia e trafica
dividem o ilícito,
barraquinhas comerciam porcarias,
travestis desfilam seu fastio.
Nos cortiços carcomidos,
famílias compartilham clandestinas
seus dias perdidos.
Nas partidas de quinta, destino Piauí,
O sorriso doído do nordestino
que foi cuspido pela big city.
Manhãzinha, avenida sumindo de vista.

7.4.04

A vantagem é que dura apenas uma semana
Por Emerson Gasperin

Assim como existe a Fashion Week, o Ano Internacional do Idoso, o Mês da Desgraça e o Dia da Mentira, há a Semana Caetano Veloso. É o período que cerca o lançamento de um novo disco do artista, quando todas as mídias unem-se para ouvir o que o semi-deus de Santo Amaro da Purificação tem a dizer ao Brasil, ao mundo e, conforme a disposição da divindade, até ao planeta Sedna. Em intervalos irregulares - a última edição ocorrera em 2002 -, a realização do evento mobiliza veículos das mais variadas tendências políticas, religiosas e sexuais. O Caso Waldomiro, a dieta de Beverly Hills, o meio-campo do Flamengo, o vencedor do Big Brother, a descoberta da cura para a gota; nada escapa da opinião panorâmica do autodenominado “Velosão” (sic).

Engrossando o coro dos bafejados pela sapiência tropicalista, é seu recente trabalho - A Foreign Sound, composto por regravações de standards norte-americanos - que vai preencher as linhas de hoje. Em 23 faixas, Caetano Veloso visita clássicos de Irving Berlin, George Gershwin, Cole Porter, Duke Ellington, Stevie Wonder, Paul Anka, Bob Dylan e Elvis Presley, entre outros. Trata-se do tipo de empreitada que nem é necessário escutar para perceber que deve ser genial. Afinal, reúne clássicos que venceram as restrições do tempo cantadas pela voz que desafiou todas as convenções poéticas ao rimar “eta, eta, eta” com “Tieta”. Os arranjos? Ah, ninguém liga para isso. Mas, se ligasse, também constataria que são impecáveis, alternando-se entre a reverência pura e simples ao original e a rebeldia iconoclasta do mais famoso intérprete de Peninha.

Feita a descrição do produto, saltam ao estômago duas releituras. Uma, “Feelings”, é abordada de forma séria, hierática, como merece o hit supremo do ianque carioca Morris Albert. A outra, “Come As You Are”, desnuda a relação esquizofrênica que Caetano Veloso mantém com a banda de Kurt Cobain. Às vezes, o Nirvana “é um lixo, se comparado a Ivan Lins”. Às vezes, é o último sopro de renovação experimentado pelo rock. A julgar pela versão contida em A Foreign Sound, Caetano estava naqueles dias em que acreditava piamente na primeira opção. Fica a sugestão para que, caso seja tramado um Volume 2, ele não deixe de incluir “Longview”, do Green Day, e “Hey Ya”, do Outkast, que também renderiam discussões proctológicas acerca da integridade artística do projeto.

A especulação começou já na data marcada para apresentar a obra-prima à imprensa: 1º de abril, 40º aniversário do golpe de 1964 e dia em que fazer os outros de trouxa é incentivado pelo calendário. Caetano Veloso poderia pregar que o poder e a beleza da música são superiores à política cretina da Casa Branca; que sua mania de ser dissonante já derrubara patrulhas ideológicas no passado; que acha Donald Rumsfeld tão lindo quanto Bin Laden. Mas não. Coerente com a folhinha, lembrou que, em uma época de anti-americanização por todo o globo, ele estava remando contra a corrente mais uma vez - embora há mais de 30 anos a História não registre movimentos seus em direção oposta ao establishment.

Um conhecido jornalista da facção anfetamínico-eletrônica deu-se ao trabalho de calcular a centimetragem que os quatro principais jornais do País costumam destinar à Semana Caetano Veloso. Multiplicando o resultado pela tiragem desses mesmos jornais, chegou a um número fabuloso: com a quantidade de papel gasta para falar que o senhor Lavigne é o ser humano mais maravilhoso do mundo (depois de Morrissey, claro), daria para imprimir cerca de 120 mil cartilhas escolares para a população carente de Barra do Guabiraba, no agreste pernambucano. Essa coluna vem acrescentar mais exemplares à conta perversa.

11.2.04

O dia em que Tiazinha pintou na Bizz

Émerson Gasperin

Sem máscara e com uma saia de oncinha, Tiazinha pintou na Bizz para promover sua carreira de estrela do roque - aliás, o disco dela tem uma versão sensacional de "Rock and Roll All Nite", do Kiss ("Eu quero rock and roll all nite, quero dançar com você", diz o refrão). O louco era que nenhum dos caras da banda dela a chamava de Tiazinha, e sim de Suzana. "Quero abandonar essa personagem, sei dançar e cantar", justificava a artista. Logo a notícia de que Tiazinha estava entre nós espalhou-se pelo prédio da editora. Os boys se acotovelavam na porta da redação para ver, farejar, tocar a estrela. Do nada, surgiu uma máquina polaróide da redação vizinha. Uêba, fotos! Resolvi organizar a bagaça. Mandei os manos ficarem em fila e, um a um, eles entravam na redação, pegavam seu autógrafo, tiravam um retrato com Tiazinha e iam embora. O processo funcionou até que um deles chegou com a Playboy com ela na capa. Normal, não era o primeiro a exigir o jamegão da popstar sobre as curvas estampadas na revista. O constrangedor foi que, na maior desfaçatez, o gurizão abriu na página em que aparece a xiranha da cidadã em superclose e lascou: "Aí ó, Su, assinaqui", apontando para os grandes lábios da modelo. A bagunça que reinava no ambiente parou. "Su" olhou em volta sem saber se achava graça, se ficava ofendida ou se prosseguia sua tarde de autógrafos como se não houvesse acontecido nada. Cinco segundos de silêncio total pareceram uma eternidade. Para (tentar) aliviar a tensão, falei para a manada: "Que cabreirice é essa? Tudé arte, né, Suzana?". Aliviada, Tiazinha assentiu com um sorriso, assinou a foto (não no lugar que o boy queria, e sim em cima da virilha) e a programação transcorreu sem sobressaltos. Mas não apareceu mais ninguém com revista na mão para ela assinar.
(por Émerson Gasperin)

9.1.04

O reveillón de Marques Casara

Saí de Floripa no meio da tarde e fui dormir em Morretes, a 50 quilômetros de Curitiba, algo do tipo "entre o mar e a montanha", três mil habitantes.

passei a virada de ano no alto da torre da igreja, em companhia de um simpático corcunda com problemas neurológicos, responsável por badalar o sino no momento exato da virada para 2004.

Homem de poucas palavras.

Entre 11 horas e meia noite tentei estabelecer um diálogo racional com ele, o que não consegui. Quando faltava dez para a meia noite o homem começou a ficar agitado. Andava de um lado para o outro, nervoso.

Eu e minha mulher éramos os únicos turistas no lugar. O homem agitava os braços e apontava para o alto da Igreja. "Vai pular", pensei.

A quatro minutos do novo ano o corcunda já estava fora de si. Balbuciava palavras esquisitas e apontava para o alto da Igreja.
Até que abriu uma porta lateral. Revelou-se uma escada de madeira velha e instável.
o Homem suava e agitava os braços em frente a escada.
___ "Está nos chamando" - comentei.
___ "Vai lá. Tô bem, aqui mesmo" - disse minha mulher.
___ "Vamos! Tá nos chamando para subir na torre".

E eis que a dois minutos do momento final subíamos a escada, aos tropeções. O corcunda gesticulava e pronunciava palavras só dele. A escada rangia. Nos degraus, imagens de santos, potes e velas cobertas de sujeira. Das paredes sem pintura vertia uma água enferrujada.

Ao chegarmos no alto da torre vimos a cidade iluminada pelas lâmpadas de natal.

Duas cordas pendiam da cúpula escura que guardava os sinos, alguns metros acima.

O corcunda enrolou uma corda em cada braço, olhou para o fosso da torre e projetou-se no vazio.

Os sinos responderam imediatamente. O corcunda sacolejava no buraco da torre. Os sinos gritavam o nascer de 2004.

o homem tinha uma impressionante habilidade para dar a cada sino uma cadência particular.

Quando tudo ficou em silêncio o homem desenrolou as cordas dos braços e limpou o suor da testa. Não disse nada. Desceu a escada, trancou a porta e caminhou em direção a uma rua escura. Vai pra casa, pensei.

Sentei na escadaria da igreja e fiquei com a imagem do corcunda. Quando ele parou de tocar os sinos, livrou-se das cordas e olhou nos meus olhos de um jeito que nunca vou esquecer. Percebi que aquele homem entendia o significado da vida. Queria ser como ele.

(Por Marques Casara)

11.12.03

Manhã de sol I
Por Nilva Bianco


A rua reflete luz
amarela, quente e cheirosa.
A luz escorre pelas ?rvores,
pelas casas, desce a ladeira
e vai se derramar l? no mar.
Os braços compridos da luz
sem cerimônia
entram no meu quarto
varrem os restos
de escurid?o e fossa.
Tocam meus cabelos,
lambem meus olhos,
penetram meus sonhos.
Desperto.

19.11.03

O crepúsculo nem tão festivo da esquerda

Por Émerson Gasperin

Parecia uma boa idéia. Realizar a palestra com o histórico intelectual de esquerda em um bar, habitat natural das conspirações festivas que ele integrara. A euforia causada pelo álcool imprimiria um tom descontraído à conversa e, com sorte, estimularia o convidado ilustre a revelar inconfidências que não poupariam nem seus antigos sócios no monopólio da resistência. Jornalistas de ontem, hoje e amanhã lotariam as dependências para ouvir daquele senhor um relato impressionante sobre o período verde-oliva do Brasil, enquanto bebericavam algo e conferiam as silhuetas das jovens que flanavam pelo local. No mínimo, seria mais divertido do que ler os livros de Elio Gaspari. Correu tudo conforme o combinado. Ou seja, deu tudo errado.

Ultrapassando as expectativas etílicas a seu respeito, o histórico intelectual já chegou de porre. Havia passado a tarde inteira e o começo da noite em um boteco regando o verbo e alimentando sua lenda pessoal. Às 11, hora marcada para o compromisso, sua dicção estava mais embaralhada do que seu raciocínio. Até aí, nada que empanasse o folclore. A disputa pela atenção enfrentaria obstáculos mais graves: a abundância de espécimes felinas mais interessantes que o palestrante e o retorno ao Brasil de um colega que ficou 14 meses viajando pela parte do planeta que a administração Bush pretende transformar em uma gigantesca quadra de basquete. De repente, escutar as últimas de Cabul com um olho na estagiária ao lado seria mais útil à profissão do que descobrir métodos para driblar a Censura.

Contra o lendário subversivo, o colega tinha a seu favor todo o mistério do Islã e a cumplicidade de seus velhos conhecidos. Para arrematar, não se entendia nem escutava nada do que o tiozinho tentava falar, salvo o movimento de perdigotos em direção ao microfone. Não demorou muito para se perceber de onde viriam as revelações surpreendentes. O colega contava seu relacionamento com o Taleban ("é um movimento gay" ), a difícil sobrevivência em um ambiente de guerrilha ("pelo menos, o cigarro é barato" ) e o rigor das muçulmanas ("não interagi com nenhuma" ). À guisa de lembrança, sacou uma burca, medalhas alusivas à ocupação soviética, uma bandeira vermelha com o perfil de Lênin e um item que imediatamente se tornou objeto de culto e adoração: uma nota de 250 dinares com a efígie de Saddam Hussein, contrabandeada por soldados americanos.

Era novidade demais diante dos lugares comuns que o convidado tinha para expor. Inconscientemente ou não, ele reconheceu a batalha pelos holofotes como perdida e levantou-se, acometido por um ímpeto urinário. Acompanhado por um chargista (seu fã), dirigiu-se ao único banheiro do local. Ocupado. O chargista bateu na porta alertando para a emergência da situação, sem resposta. Então o intelectual declarou com a língua enrolada: "Não vai mais ter palestra nenhuma" . E baixou o olhar. A mancha escura em sua calça cáqui reproduzia o mapa do Chile, um filete que ia da virilha até a canela. O chargista ainda alegou que, se derrubasse cerveja em sua roupa, ninguém ia notar nada. Mas o clima - ou a atmosfera - já estava irremediavelmente comprometido. O sonho acabara.

Quase ninguém acusou a retirada do intelectual. Humilhado, o veterano de grandes causas perdidas, exemplo de valentia na sala de tortura e ícone da luta pela liberdade, voltou para o hotel sozinho, tendo de convencer um taxista a levá-lo naquele estado. Na saída, ainda foi interpelado por outro admirador: "Oi, sempre me inspirei em seu trabalho e..." "Pô, vocês aqui são f..." , interrompeu o prócer da imprensa combativa, antes de evaporar. Lá dentro, na mesa do fundo, o colega continuava com o ibope alto devido à milonga afegã, sem se importar com o destino de sua cédula de dinar. No banheiro, alheios ao drama nefrológico do intelectual, dois amigos do viajante faziam o que nem todo o poderio militar do Pentágono conseguiu: deixar o ditador iraquiano de cabelos brancos.

(por Emerson Gasperin)