15.12.05

Um complemento à entrevista abaixo: do baú de Adriana Kuchler saíram também estas três caricaturas inéditas, em que Frank, Zé Dassilva e Bonson retrataram uns aos outros.




Frank por Zé Dassilva





Zé por Bonson.



Bonson por Frank

14.12.05

Em maio de 2001 a repórter Adriana Kuchler reuniu, num etílico papo de mesa de bar, três dos principais chargistas de Santa Catarina: Frank Maia, Zé Dassilva e Sérgio Bonson, que morreu na semana passada. Falaram de jornalismo, arte, censura, inspiração e mais um monte de coisa. A entrevista terminou de um jeito inusitado. Esse texto ia ser publicado no Zero, jornal-laboratório do curso de jornalismo da UFSC, mas o jornal não foi impresso e o material permanecia inédito até agora. Bom proveito.

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Uma estranha no ninho

Com muita cachaça na cabeça, os três principais cartunistas de Santa Catarina se juntaram para falar sobre jornalismo, censura e política. Com Bonson, Frank Maia, Zédassilva e um intruso desconhecido juntos não dava pra esperar uma conversa séria: a entrevista terminou em porrada. Muito bem encenada.

Vocês acham que o que vocês fazem é jornalismo?
Frank Maia- Porra, é puro jornalismo. A diferença entre eu e o cara que escreve é justamente porque eu não sei escrever e ele não sabe desenhar. Só essa diferença.
Bonson- Eu discordo desse cara aí.
FM- Ele não discorda nada. Ele tá bêbado.
B- Eu discordo.
FM- Eu acho que o que a gente faz é jornalismo puro, o que a gente faz é entender a situação, a gente tem um trabalho de articulista, de colunista, de editor, é um trabalho... A gente lê tudo que acontece no dia, seleciona o principal fato. É como selecionar manchete do jornal. A gente dá a nossa opinião, é como se a gente fosse um articulista, um editorialista.
Zédassilva- A diferença é que a gente não ganha nada.
B- Eu discordo. Eu acho que... Eu discordo e concordo. Eu não sou mineiro mas eu discordo e concordo ao mesmo tempo. Eu acho o seguinte: que como jornalista, realmente aí eu tô na área, a gente realmente é jornalista. Mas eu acho que a gente às vezes pode fazer uma charge sobre a manchete, factualérrima, né? Mas também pode fazer uma charge como um articulista de fundo.
FM- Isso não é ser jornalista, né?
B- Ah, porra, mas tem uma diferença de tempo. Tem a longa duração e a curta duração. Então, por exemplo, um cartunista que nós dois admiramos, o Angeli. Não é a Angelita, a Angelita nós dois também admiramos. Ahhh! (Risos) Então eu acho que a gente trabalha pra jornal e evidentemente ninguém escreve tese acadêmica, né? ( Os outros conversam.) Mas assim... Ô animal, isso tem que sair na entrevista, é um crima, não é RBS aqui. (Risos). Seguinte, fulaninho (incompreensível), ele faz charges metafísicas, sobre a condição humana, se aproveita de um fato banal, da miséria, aquela que ele faz debaixo do viaduto, miserê e tarará, aquilo são cartuns. São meditações pela condição humana.
FM- Filosofada.
B- Filosofada, mas bem filosofada. Não é que são bem desenhadas, né, diga-se de passagem. Não tem literatice, ele faz muito bem isso.
Revista- Então ele não é jornalista?
B- Não. Ele é jornalista.
FM- Então, cara.
B- Mas eu fiz uma pequena distinção, animal.
Zé- Chama do jeito que for pra chamar, cara. Jornalismo, eu acho que é assim, tu pegar a informação e filtrar ela pro leitor, ou pro telespectador ou pro ouvinte. Então, se a charge é isso, então também é jornalismo. Mas eu acho que é um pouco mais que jornalismo. É jornalismo-arte.
FM- Jornalismo é arte? Lembra aquela discussão?
B- OLHA EU...
FM- Não precisa gritar. Não precisa impor a sua opinião.
B- É que quando eu bebo eu fico enfático.
FM- Então pára de beber. O que eu penso é o seguinte: charge é jornalismo sim, não tem jeito. O Bonson discordou e acabou concordando.
B- Eu discordei e concordei, cavalo.
FM- É lógico. Porque o que a gente faz é que o invés de escrever, a gente desenha.
B- Exatamente.
FM- Então porque você tá discordando? Muita cachaça na mente, acontece isso, né Zé? ... O Zé tá dormindo. O Zé babou.
Revista- Isso vai ser registrado na entrevista. Agora cada um pode falar quem vocês mais gostam de zoar? O político, o personagem...
B- O careca. O Amin, porra.
FM- Olha, quem eu mais gosto de zoar é o contraste. Não é a zueira grátis, o que eu gosto de zoar é sacar o absurdo e colocar isso na charge.
Revista- Dá um exemplo.
FM- Um exemplo é o cara roubar dois bilhões da Sudam e você não saber quantos zeros tem isso. O cara roubar dois bilhões da Sudene. Não, dois bilhões e quinhentos, ganhou, e tu não saber quantos zeros tem isso. Enquanto tu tá se cagando pra cobrir o cheque especial. É isso. Tem um cara ganhando 180 de salário mínimo. (Chega o intruso) Quem é esse cara aí?
Zé- É o camera man.
FM- É esse contraste que eu gosto de zoar pra ver se os caras mexem o rabo. O Casseta e Planeta tinha uma camiseta que eu acho linda que é “Ê povinho bunda”, entendeu? Porque nós fizemos uma puta exposição “O povo tem mais é que se fuder” é justamente sobre isso. O cara se fode, chega na próxima eleição o cara troca o voto por uma carrada de brita, por um tijolo, por um banheiro na casa dele. Porra, tem mais é que se fuder quem pensa assim.
Zé- Ô, deixa eu dizer uma coisa: o Frank tá ficando chato. Ele tá falando muito sério.
FM- Desculpa, Zé.
Zé- Pra mim, acho que é o Amin, mas eu gosto de pegar também duas coisas que não tem nada a ver e fazer uma relação com elas. Tipo: o Fernandinho Beiramar foi preso, fazer uma relação dele com os senadores que tão aí pra ser cassados. Uma vez eu misturei um lance da novela com um lance do Itamar, que depois saiu na Veja, foi publicada. Acho que é uma fórmula legal, misturar duas coisas que não tem nada a ver.
Revista- Que charge você gostariam de fazer mas não fariam porque com certeza seriam censurados?
B- (se dirigindo ao Frank) Ah, por exemplo, aquela que eu te mandei por e-mail que era pornoca. Era o FHC nu, numa cadeira, e aí ele tá com o pinto, a Nadir tá chupando e o FHC tá dizendo “Ah, dona Nadir, sabia que a senhora ia entender o espírito da coisa. É pra botar a boca nesse trombone.” Aí ele teve uma reação moralista.
FM- Eu fiquei chocado. Eu só acho que o Bonson tá numa idade que tá precisando cruzar. Só pensa nisso.
Revista- E você?
FM- Acho que não tem essa. Eu faço o que eu quero, o que eu acho que é certo. A censura não vai vir de mim.
Revista- Não existe nenhum assunto proibido?
Zé- Em todos os jornais que eu trabalhei aconteceu isso. Em algumas o cara até se passa, como essa aí do Bonson. Não é censurado. O cara diz assim “ Você quer publicar isso, bicho? Vai tu pra rua e eu.” Teu chefe te fala.
FM- Eu trabalho num jornal, eu sei qual é a linha do jornal, que tipo de piada eu posso fazer. Se eu quiser ser censurado, amanhã eu sou censurado. Só que eu não sou burro. Eu posso fazer as coisas de um jeito que eu não seja censurado.
Revista- Mas você já foi censurado.
FM- Olha, de cinco anos de charge, uma vez, uma editora, que eu adorava, chegou pra mim e falou “Você pode publicar essa charge”.
B- Qual era a charge?
FM- Não vou falar.
Todos- Ahhh...
B- Fala! Fala! Fala!
FM- Se vocês querem ser heróis, eu não quero ser herói. Ela falou assim “Você pode publicar essa charge, mas amanhã vai dar uma merda isso aí. Você tem outra charge?” Eu falei “Eu tenho mais 20 charges”, “Pode pegar uma dessas suas 20 charges e colocar no jornal amanhã pra gente não se incomodar.” Eu falei “ótimo”. Eu trabalho numa empresa, eu não tenho um jornal meu. Eu já tive. Eu sei que tem um monte de questões comerciais. Vem com essa ilusãozinha, sou combativo. Vai se fuder. Não existe isso. O cara fala do ACM, tudo bem. Agora, fala do carinha daqui, que anuncia aqui, que sustenta o jornal aqui. Não tem essa ingenuidade. Não existe mais isso. O Bonson já foi processado já ganhou uma grana por causa disso.
B- Já fui pra rua do jornal.
Revista- De qual jornal?
B- Ah, o nome do jornal? Será que merece ser citado?
Revista- Claro.
B- É o Estado. Aquela coisa lá. Aquele jornal filha da puta, que ele me deve um acordo judicial e não paga.
FM- Aproveita e manda um recado.
B- O Comelli aquele ladrão filho da puta. Outras vezes eu fui aconselhado, aí o Frank tem razão, que a gente tem que ter um bom senso. Se as Casas Pernambucanas, se é que ainda existem, anunciam no jornal, você não vai fazer uma charge metendo pau nas Casas Pernambucanas. Agora, isso aí , tu pode driblar falando do capitalismo em geral e tal.
Revista- Mas por que você foi processado?
B- Pois é, é que quando começou a abertura, eu pensei “liberou geral”. Como o Figueiredo gostava de cavalos, eu botei um cavalo com quatro estrelas. Aí ligaram pro jornal e pediram a minha cabeça. “Ah, vai tira esse cara.” Outra vez eu fui censurado, eu prestei um serviço de utilidade pública porque era um cara duma companhia, esqueci o nome agora. Tinha uma companhia que explorava ilegitimamente, ilegalmente um pedaço da ilha do Campeche. Aí eu soube que o delegado do SPU, do Serviço do Patrimônio da União, tinha dado três mil metros pra Pioneira da Costa. Aí eu fiz uma charge, botei os dois num barco e o dono da Pioneira da Costa jogando uma rede, pegando três mil metros e o cara dizendo “Legal, chefe, por enquanto pegamos três mil metros.” Aí ele me processou e se fodeu porque eu ganhei o processo. Então, eu acho que nessas situações tem mais é que fazer porque é um serviço de utilidade pública.
FM- O teu currículo ficou enriquecido?
B- Eu acho.
FM- Eu também.
Revista- Existe algum tipo de competição entre vocês?
FM - NÃO. (finge dar um soco no Bonson. Risos.) Existe o seguinte: paralelismo de idéias, às vezes nem é com o Zé, nem com o Bonson. Às vezes, você faz uma charge e tem um cara mané lá em Pindamonhangaba que faz uma charge igualzinha à minha. Outro dia o Bonson me passou um e-mail e ele falou “Olha, bicho, imagina, a Nadir sendo sanduichada pelo ACM e pelo Arruda.” Filho da puta lá em Brasília fez a charge e eu mandei pra ele. Olha aqui, pensou igualzinho. É o paralelismo de idéias. Já aconteceu do Zé fazer charge igual a minha, o Bonson, eu fazer igual a deles. Normal.
Revista- O que vocês fazem quando não tem nenhum acontecimento importante no dia? ( o intruso, que vinha incomodando desde o começo da entrevista, fala sem parar)
FM- Quando não tem nada importante...
B- (Pro desconhecido) Ô Jacaré, cala a tua boca. CALA A BOCA! (E o cara continua.)
FM- Vou comprar uma bengala.
Zé- Se não tiver nada acontecendo, sempre vai ter o jornal, vai ter que ter manchete. Sempre vai ter alguma coisa acontecendo. Pode fazer em cima de alguma coisa que já aconteceu. No dia seguinte, deu uma repercutida. Tipo, caiu a plataforma da Petrobrás, isso é assunto pra semana inteira.
B- Cala a boca! PÁRA DE ENCHER O SACO! PORRA!
FM- Hehehe. Esse é o meu velhinho. O lance é o seguinte: nada é mais velho do que jornal de ontem. Essa frase...
B- (sempre falando pro cara) Tá querendo o quê?
Revista- É da primeira fase.
FM- É da primeira fase. Tutorial one.
B- Quê?
FM- Tutorial one. Hã! Agora eu eruditizei.
B- É aramaico?
FM- É aramaico. Todo dia muda alguma coisa. Todo dia tem uma manchete.
B- Todo dia tu muda a cueca, por exemplo.
FM- Tu não porque tu não usa cueca.
B- Ah, eu não. É verdade.
Zé- Pior que eu não tô usando também.
FM- Eu acho que o jornalismo que a gente faz, todo dia tem alguma coisa que mudou. Às vezes, o assunto é fraco, a gente pena. A gente pensa na piada velha, vamos reformular. Tem dia de agonia, mas os dias que a gente anda vivendo ultimamente, não tem agonia. Tem abundância de assunto. Tem uma overdose de coisa.
Zé- Olha, hoje, por exemplo, teve o negócio do Fernandinho Beiramar. ( Frank e Bonson se abraçam e ficam cochichando). Olha que momento bonito! Levaram ele pra Brasília, iam levar pro Rio, levaram pra Brasília. A charge tá pronta. O assunto já nasce...
Revista- Que charge que você fez?
Zé- Que ele tava indo lá pra dar autógrafo pros políticos. Esse é o caso que a notícia já nasce ridícula.
Revista- Vocês três são cartunistas dos principais jornais do estado. Existe mercado pra quem quiser ser cartunista aqui?
FM- NÃO. Inclusive, eu queria aconselhar os novos cartunistas a procurar outro ramo de emprego. No Paraná, tá precisando, no Acre. Em Rondônia, tem vaga pra cartunista iniciante. E eu quero mandar um abraço pro Romeu, pro Fred, pra aquela galera lá e mandar eles pro inferno. (Risos)
Revista- Vocês desaconselham, então?
B- Desaconselho. O que que a gente desaconselha mesmo?
FM- Mentira. A gente adora eles, mas é melhor eles fazerem outra coisa na vida. Parece que vai rolar o concurso dos correios. Fala pro Fred e pro Romeu fazerem o concurso dos correios.
B- CALA ESSA BOCA, CARA! (o estranho continua a se meter na conversa)Revista.- Vocês trabalham em outras áreas do jornalismo além da charge?
Zé- O cara faz o que o mercado pede porque tu precisa. Muitas vezes, fiquei fazendo editoração pra ganhar a vida. E as vezes alguém precisa de um texto, tu escreve.
B- CALA A BOCA, RAPAZ. VAI TOMAR NO CU.
Zé- Fica, assim, de noite, pensando como ganhar. Cada um tem um jeito.
B- CARA CHATO. (Bonson avança no sujeito.) SAI PRA LÁ, SEU PENTELHO. PORRA. SAI DAQUI, MEU. SAI DAQUI QUE EU VOU TE ENFIAR PORRADA.
Bonson dá uns socos no cara, enquanto o Frank tenta segurá-lo. O outro nem se mexe. Confusão na livraria. Arrastam cadeiras e mesas. Ninguém sabe o que fazer. Acabam botando o cara pra fora. Depois da briga Frank vem confessar que estimulou Bonson a partir pra cima do intrometido:
- Vai, que eu te seguro.
Bonson ainda tentou se justificar:
- Nós tamos ali e o cara tá o tempo todo interrompendo e eu falava “Cala a boca. Cala a boca.” Cada vez num tom mais alto. Aí, por um processo químico, o cara perde o controle. Eu perdi o controle. Tá louco. Gravasse isso? Vou tomar uma outra agora pra...

9.9.05


Severino Cavalcanti na marca do p?nalti. Xarj de Frank. Posted by Picasa

A Tutu. Foto Dauro Veras, 2005. Posted by Picasa

Crian?as bolivianas. Foto de Yan Boechat, agosto de 2005. Posted by Picasa