23.8.02

Sobre Paris
(duas ou três considerações, de rua ou de sonho)
Adriane Canan
"Os pés em Paris/Negros como o breu da noite/ Os pés em Paris/ Panos coloridos como um sábado/ Os pés em Paris/ Negros olhos transfigurados num ocidente antropófago/O menino é romeno, chora na mão pelo dinheiro que pede/ Chora a mãe no ventre pelos filhos que carrega/ Choram os pés em Paris/ (Barulho do metrô) /Silêncio nas ruas sepultadas de história/ O peso da cultura nos olhos absortos do intelectual/ E a bicha velha que importa o corpo-menino-asiático por pão e sexo/ O rio gelado e os turistas medíocres que posam de ricos ao som de Edith Piaf/ Os grandes pintores pendurados nas paredes do Louvre/ (Barulho de passos no corredor)/ Arte vale muito?/ A Torre Eiffel e os souvenirs de pobre/ A Place Vendome e a morte da nobre-plebéia-donzela-prostituta que trepava com o milionário egípcio/ Armani,Mont Blanc/ O homem aluga o menino para pedir esmolas/Os pés em Paris/ (Sonho com o Pablo)/ As escadarias de Nogent-Sur-Marne e a tranquilidade na casa da Irina/ As putas-travestis-argelinas do Kadet/ Fotos pra ficar na festa/Os olhos azuis da Lara percorrem a escola de artes/ E a alemã ex-comunista foi para os Estados Unidos do World Trade Center/ (Penso na Amanda)/ O português arrota arrogância e come seus próprios eus/ As baianas são negras como os negros da Estação Les Halles/ Os andinos não recebem palmas/ Os judeus fazem doces no Mares e jogam bombas nos palestinos/ Enquanto o Mc Donalds de Paris tem cabelo no Big Mac/ A França vota numa eleição silenciosa como a morte/Sem pombos/ Uma capa de chuva verde-limão e um dia livre para compras em Paris/ Pausa."

Adriane Canan
Cachorrinho

Giancarlo Proença

A fila de carros parecia estar parada há horas e um homem lá pelos seus trin-ta anos, sentado confortavelmente no banco de seu automóvel de luxo, olhava para o céu. As nuvens carregadas ao Sul, uma réstia de sol dando adeus ao dia a Oeste. O pen-samento do homem, pelo franzido da testa e batucar nervoso ao volante, era pura preo-cupação. Com a chuva que vinha dali a pouco, com a hora de vida que o engarrafamento lhe tomara, com a safra de soja, com a cotação da Bolsa de Chicago e o preço do dólar em Taiwan.

Foi quando a menina, descalça no asfalto ainda quente de fim de tarde, parou ao seu lado e também olhou para o céu, no mesmo ponto em que estavam os olhos do senhor. Sorrindo inocente, observou:

– Aquela nuvem parece um cachorrinho.

17.8.02

Verdades
Fábio Bianchini
Certa vez, por força de uma série de circunstâncias, eu estava na casa de uma amiga minha, com a qual eu não tinha nenhum envolvimento romântico-sexual. E descobri que é verdade. Enquanto esperam telefonemas, mulheres fumam, andam de um lado para outro da sala, enchem a boca de água, conjecturam se a pessoa não está ligando para o número errado e ficam irritadiças. E acabam elas telefonando. Sim, todo mundo sabe disso, mas é um “todo mundo sabe disso” tão sério que quem nunca viu pensa que é um clichê mítico. Mas aí pude observar o fenômeno de perto, em ação. Em ebulição. Ela fazia perguntas, eu respondia e tomava esporro por causa disso.Talvez fosse o caso de comprar chocolates. Elas gritam “yes” e andam com sorrisos bobos. Foi quando eu vi que talvez soubesse algo a respeito de mulheres, afinal.

No começo, foi só uma revelação divertida. Mas em seguida eu me liguei. Se essa parte do folclore é verdadeira, talvez todo o conhecimento bagaceiro acerca de mulheres que eu descartara a vida inteira pudesse ser útil. Claro. Como levei tanto tempo para pensar nisso? Aqueles ditados proferidos com ar de verdade absoluto. E o pior é que não consegui lembrar deles. Porra, eu sempre fiz piada e ridicularizei isso tudo, mas não lembrei de nada quando precisei.Como era? Mulher na serra é igual a... a que mesmo? Pensei em ligar pro sindicato dos caminhoneiros e pedir um catálogo das melhores frases de pára-choque, mas tive uma idéia melhor.

No dia seguinte, fui para o estádio. Era dia de clássico da cidade. Comprei ingresso, amendoim, pipoca, entrei, acompanhei o jogo das arquibancadas e, lógico, acompanhei a torcida que estava a meu redor, mas sem realmente me importar com o resultado. Essa é a vantagem de morar em uma cidade para cujos times eu não dou a menor importância e, sinceramente, gostaria que todos se fodessem. Minha missão não era esportiva.

Quando a partida terminou, empatada, sentei-me no bar do lado de fora do campo. O zero a zero chato e desinteressante facilitou a minha vida. Se fosse diferente, a euforia da vitória ou a frustração da derrota manteriam o futebol como assunto nas rodas de conversa por ainda mais tempo, mas o jogo não rendeu muito papo e logo cheguei aonde realmente queria: falar de mulher.

Bebi muita cerveja, resmunguei, reclamei de Ana o quanto pude. Enchi o ouvido do meu novo melhor amigo, Jorge, com histórias de como eu era bom com ela e como ela me tratava mal. Outro grande camarada, Mendonça, também ouviu atentamente e aproveitou para nos contar de como sofria por Dulce.

A partir do segundo engradado, começou a funcionar. Pérolas da sabedoria popular, extraídas do mais puro chauvinismo, fluíam. “O negócio é sempre negar até o fim”, aconselhou Jorge. “Não pode ser bom com elas. Se a gente for bom, elas fazem de gato e sapato”, recitava Mendonça. “Mulher é assim”, explicava Jorge. “Tem que fazer assado”, prescrevia Mendonça. E eu anotando tudo mentalmente.

Saí de lá cheio de idéias. Estava tudo claro, fazia todo o sentido. Eu agira como um imbecil durante toda a minha vida amorosa e sexual. Antes dela também, o que adiou-a em alguns anos. Lógico. Como eu não vira tudo aquilo há mais tempo? Mas tudo ia mudar. Agora eu já sabia exatamente o que fazer, o que dizer. Ana nunca mais iria me fazer de bobo. E, de certa forma, eu seria melhor para ela, já que, afinal de contas, iria tratá-la do jeito que ela realmente queria. Assim, seríamos felizes para sempre.
Fracasso total. Ana acabou agarrando o maior idiota que eu conheço na minha frente e na de mais um monte de gente, para ter certeza de que eu não teria como escapar da humilhação. Deu tudo muito errado.

Como era possível uma coisa daquelas? Eu tinha ido em busca da sabedoria de oráculos, mas em vez disso, ganhei uma receita de fracasso. Na semana seguinte, voltei ao boteco do lado do estádio. Era o jogo de volta do clássico, mas do jeito que o meu humor estava, seria besteira entrar. A qualquer momento eu poderia falar alguma bobagem que, no meio da torcida, colocaria minha integridade física em sério risco. Em vez disso, esperei o fim da partida já no bar, já atolando o cérebro em cerveja. Mais uma vez, eu não queria futebol.

Queria meus direitos de consumidor, queria reclamar dos palpites que tinham vindo com defeito. Dali a pouco, chegaram Mendonça e Jorge, reclamando muito e acompanhados de um terceiro companheiro meu para toda a vida, Miltão. O time deles perdera. O assunto que eu queria levou muito mais tempo para engatar do que na semana anterior, mas chegamos lá. Contei tudo o que aconteceu. Miltão limitou-se a balançar a cabeça e comentar:

- Mulher é foda.

Todos balançamos a cabeça. Só pude concordar e concluir que, agora sim, já sabia tudo o que há para ser sabido sobre elas. Mulher é foda.
Texto de Fábio Bianchini

5.8.02

Joeldson tem um sorriso aberto e casto. A camisa de tergal é sempre abotoada até o último botão. E amarela no suvaco. Tem poucas palavras e as que têm saem sempre da Bíblia. No trabalho faz tudo direitinho, desde que tenha uma única tarefa por vez. Duas coisas ao mesmo tempo já não dá, confunde tudo.

O sonho dele é ser padre e conhecer o Papa. Só fala nisso. Economizou dinheiro para ir a Roma, mas o governo mudou algumas regras e o dinheirinho sumiu da poupança.

Não tem problema, quando eu for padre poderei ir, diz tentando se convencer.

Mas então por que não entra logo no seminário?, perguntam os colegas de repartição.

O padre não deixa. Disse que tenho que conhecer um pouco a vida primeiro, responde envergonhado.

Os colegas sacanas sabem do que o padre está falando. Um deles incentiva Joeldson a seguir os conselhos do padre.
Vamos lá, aqui na rua dos Anexos a gente resolve esse teu problema em cinco minutos. E nem sai caro, 10 pila e tá tudo resolvido.
Joeldson só entende quando todos caem na gargalhada e falam em bundas e peitos. Até as orelhas de Joeldson ficam roxas. Ainda bem que já são quase seis. Ele olha para o chefe suplicando o aceno que lhe permite a liberdade.

Vai a pé até a rodoferroviária. Vendeu a metade dos vales transportes para ajudar na caixinha da igreja. Enquanto anda, tenta se distrair admirando o pôr do sol. O céu atrás da Torre está cinza e escarlate. E o calor ainda sobe da terra vermelha.
As palavras do colega ficam martelando em sua cabeça. E os peitos e bundas insistem em desfilar na sua frente. O padre está errado, só pode estar errado. Dormir com uma mulher sem os sagrados laços é pecado mortal. E Joeldson não quer pecar. Corre para afastar os maus pensamentos. Não quer xingar o padre. Não quer ver os peitos.

Entra no ônibus para Santa Maria. Parece que todas as mulheres perderam a vergonha. Sem menhum esforço se pode ver os peitos sob as blusas transparentes. Essa moda é coisa do diabo.Esse calor é coisa do diabo. Em cada parada, mais mulheres, mais pernas, mais bundas dentro de calças apertadas. Joeldson sua e reza baixinho. Precisa vencer a tentação. O calor aumenta.

Graças a Deus chega à pensão. Corre para o banheiro que está ocupado. Faz penitência e resolve não jantar. Vai para o quarto. O suor escorre pelo pescoço. Ele ajoelha e reza. Pede perdão a Deus. Apaga o bico de luz e se enfia na cama. Pede perdão mais uma vez. E bate uma punheta.